Gregório XVI: uma voz que clama no deserto



Introdução

Um homem que vagueia por um deserto anda constantemente à procura de algo: água, comida… Assim também a sociedade depois da revolução francesa se tornou um deserto. Os homens andam sempre desesperados à procura de uma nova teoria para abraçar e uma nova inovação que possam idolatrar. Mas, tal como há também há dois mil anos surgiu uma "voz que clama no deserto" (João 1:23), assim também na nossa sociedade surgem homens que clamam neste deserto. E porque clamam essas vozes? Cristo!


Ao longo dos tempos vão surgindo novas mudanças, novas teorias e ideologias, mas na Igreja vão surgindo homens que gritam ao mundo: Cristo! O mundo procura por novas ilusões e a Igreja relembra: Cristo! Vimos como quando o mundo se revoltou contra Deus, na revolução francesa, o Papa gritou: "Cristo! Vimos também como o intuito da Doutrina Social da Igreja é exatamente lembrar aos homens que eles e as suas sociedades não podem viver sem Cristo.


Gregório XVI foi sem dúvida um homem que gritou por Cristo. Não cedeu, mas tentou levar o mundo a Cristo. Foi um Papa que marcou claramente a posição da Igreja. Provavelmente foi o que o fez mais claramente desde os tempos da revolução francesa, e por isso é que é do nosso interesse estuda-lo agora. Quando muitos se começavam a conformar com a nova ordem, o Papa deixou claro: a Igreja não pode deixar Cristo, a Igreja tem de levar Cristo ao mundo!


O Papado de Gregório XVI: um confronto contra o avanço do liberalismo


"Cheio de fé, governou a igreja por 15 anos com a caridade de um apóstolo e o coração de um pai", assim termina o capítulo do livro "The lives and times of the Popes" sobre Gregório XVI. 


Além de cheio de fé, foi também cheio de esperança em Deus. "Quando jovem padre, (era já) um resistente da Revolução" (3). Em 1799, já cardeal, escreveu o seguinte no prefácio do seu trabalho "Il trionfo della Santa Sede e della Chiesa contro gli assalti dei novatori" ("O triunfo da Santa Sé e da Igreja contra os assaltos dos inovadores"): "Mais de um leitor talvez ache singular e irracional que, enquanto as almas devotadas à Igreja deploram a ruína do santuário, a dispersão dos sagrados ministros do altar, o exílio, o cativeiro e os ultrajes infligidos sobre o próprio soberano pontífice, que Deus abandonou ao poder de seus inimigos impiedosos, enquanto, em uma palavra, a Santa Sé cambaleia e a Igreja geme sob o peso de suas correntes, me comprometa a representar a Igreja e a Santa Sé como triunfante sobre seus inimigos. Se, desde a barbárie dos primeiros séculos, houve uma época em que o triunfo da Santa Sé e da Igreja deveria aparecer de maneira marcante, é certamente a época atual, que a Sabedoria Eterna predestinou a duras provações, a fim de que, gastando as suas forças contra a Igreja, a impiedade não tenha mais meios de repetir seus golpes, redobrando seus ataques; que a incredulidade perca a esperança de vencer, e pelo menos, reconheça o fato de que é, como observa São João Crisóstomo, 'mais fácil extinguir o sol do que aniquilar a Igreja'." 


No meio da catástrofe em que viveu, com revoluções a surgir em toda a parte e o mundo cada vez mais a afastar-se de Cristo, Gregório XVI tinha uma fé e uma esperança em Deus que lhe davam a certeza de que no fim a Igreja venceria.


Certamente os tempos pioraram, mas aprendamos com este Papa a ter confiança em Deus e a fazer a nossa parte. 


Gregório XVI foi eleito em 1831. Um ano antes tinha ocorrido uma revolução na França que derrubara a Casa de Bourbon e infligira um duro golpe à França monárquica e católica. O novo governo francês, ainda monárquico mas liberal, conquistou Ancona, o que deu força aos movimentos nacionalista (liberais) de Itália, além de claro, a revolução de 1830 ter dado uma nova esperança às aspirações dos revolucionários europeus e especialmente na Itália. 


Na Itália, havia uma organização secreta, do estilo da maçonaria, que estava por trás destes movimentos: os carbonários. Os carbonários foram, no papado de Pio VII alvo de condenação, (através da encíclica Ecclesiam a Jesu Christo). Pio VII diz o seguinte sobre eles: “Os Carbonários têm como finalidade principal o mais perigoso de todos os sistemas: propagar a indiferença em matéria religiosa; dar a cada um a liberdade absoluta de fazer para si mesmo uma religião conforme suas tendências e suas ideias; (…) desprezar os sacramentos da Igreja (…) bem como os mistérios da religião católica; enfim, destruir esta Sé Apostólica contra a qual, animados por um ódio todo especial devido ao primado desta Cátedra (S. Aug. Epist. 43), eles tramam as mais detestáveis e sórdidas conspirações”. Os membros foram todos excomungados. Este movimento era, no fim, uma organização liberal, anticlerical, do estilo da maçonaria, que estava por trás das tentativas de unificação de Itália. 


Em 1831, ano de eleição de Gregório XVI, eclodiram mais destas revoltas liberais. "Foi na própria praça do Vaticano, ao conceder a primeira bênção papal, que chegou até ele o boato de uma insurreição nas províncias". (1) Foram revoltas bastantes fortes, o sobrinho de Napoleão chegou a enviar uma carta ao Papa a dizer que deveria abandonar o seu poder temporal, o que o Papa não aceitou, claro. Só com a ajuda de tropas austríacas que atuaram durante um mês é que se conseguiu suprimir as revoltas. 


"Em 5 de abril ele (Gregório XVI) enviou uma carta aos seus queridos súditos, cheio da maior gratidão para com o povo fiel a quem Deus deu a vitória sobre os rebeldes ímpios, que com mãos sacrílegas quiseram trazer destruição e tristeza sobre os limites dos levitas."


Podemos, portanto, dizer que desde o primeiro momento do seu pontificado, o Papa se confrontou com o crescer dos movimentos liberais.


Apesar da vitória, "esses eventos formaram o padrão dos próximos quarenta anos que condicionaram a psicologia e o lugar no sistema de estado europeu, do papado (...) o papa não poderia mais ser um governante absoluto de um país em ruínas e sem prosperidade sem a ajuda de um guarda-costas - isto é, um exército estrangeiro" e além disso "(os Estados Papais) a todos os Estados da Europa Ocidental, exceto Espanha, Portugal, e Nápoles parecia estar atrasado e fora de sintonia com os tempos. Foi um governo absoluto (em teoria) numa época em que o mundo fora da Rússia pressionava por várias formas de governo constitucional." (3)


Para as potências europeias, havia então que mudar e fazer entrar os princípios liberais nos estados Papais. A Áustria, por ter ajudado os Estados Papais, achou que "uma nova era tinha começado" (4) e que reformas tinham de vir.


"Em abril, uma conferência das grandes potências (segundo se lê na Enciclopédia Católica, continha representantes das cinco potências, Áustria, Rússia, França, Prússia e Inglaterra), foi aberta em Roma. (...) Este corpo, composto por fanáticos protestantes e gregos, tinha apenas um membro sinceramente católico e, no entanto, comprometeu-se a estabelecer regras para o governo dos Estados papais." (1)


Estas cinco potências compuseram um Memorandum a exigir reformas nos estados Papais.


"Este Memorandum das grandes potências exigia reformas não apenas nas províncias que foram ameaçadas pela revolução, mas também nos bairros tranquilos e na capital. Os leigos, dizia, deveriam ter acesso à administração, e aos cargos judiciais; as comunas devem ser governadas por conselhos que eles mesmos escolheram, e provinciais conselhos deveriam ser estabelecidos. Finalmente, deveria haver uma Giunta ou assembléia administrativa de notáveis ​​que daria uma espécie de garantia interior em relação às mudanças às quais um reino eletivo como o papado é sujeito de necessidade. (...) Mas tanto o Papa como os cardeais concordaram que nenhuma concessão poderia ser feito em uma direção democrática."


"O governo de Louis Philippe, que havia excitado as revoltas italianas e estava longe de estar solidamente estabelecido, ofereceu ao papa a sua proteção sob a condição de que ele adotasse as reformas do Memorandum e as proclamasse como leis. Gregório XVI não pôde deixar de sorrir quando o cardeal Bernetti lhe informou dessas ofertas. "Oh", exclamou o papa, "a barca de Pedro suportou provações piores do que esta. Certamente enfrentaremos a tempestade. Que o rei Filipe de Orléans guarde para si mesmo a bonaccia que nos venderia pelo preço da honra. O seu trono vai desmoronar, o nosso não." (1)


Demonstrando aquele princípios, de que não somos contra toda a mudança mas só contra a mudança no sentido errado, o Papa, apesar de ter recusado todas aquelas de cariz democrático ou liberal, aceitou várias reformas propostas que visavam melhorar realmente os estados Papais.


Na enciclopédia católica, sobre o que o Papa aceitou e o que não aceitou lemos o seguinte: "Gregório comprometeu-se a levar a cabo as reformas propostas como julgasse praticáveis, mas em dois pontos ele estava determinado a não ceder: ele nunca admitiria o princípio da eleição popular para os conselhos e nunca permitiria o estabelecimento de um conselho de Estadual, composto por leigos, paralelo ao Sagrado Colégio. Por uma sucessão de éditos, datados de 5 de julho, 5 de outubro e 5 e 21 de novembro, foi posto em prática um amplo esquema de reforma da administração e do judiciário. As delegações deveriam ser divididas em uma complexa hierarquia de governos central, provincial e comunal. À frente de cada um desses órgãos, respetivamente, estaria um pró-legado, um governador ou um prefeito, representando o Papa, e assistido por, e (em questões financeiras) controlado por, um conselho que foi selecionado, de uma lista tríplice eleita, pelo governo. Todos esses órgãos deveriam manter o Papa informado sobre os desejos e exigências de seus súditos. A reforma do Judiciário, no que se refere ao contencioso cível, foi ainda mais profunda. Pôs-se fim à confusa multiplicidade de tribunais (em Roma não menos de doze das quinze jurisdições conflitantes, incluindo a do arbitrário uditore santissimo, foram abolidas), e três hierarquias, compostas cada uma de três tribunais civis, um para Bolonha e as legações, uma para Romagna e as Marcas, e uma para Roma, foram estabelecidos. Em cada um deles, o acordo de quaisquer dois tribunais inibia novos recursos, e a maioria dos tribunais deveria ser composta em grande parte por leigos versados ​​na lei. Os tribunais criminais não foram reformados tão radicalmente, mas mesmo neles pôs-se fim ao vexatório e muitas vezes tirânico sigilo e irregularidade que até então prevalecia". (2).


Entre outras reformas suas com vista a melhorar os Estados Papais, lemos que "reduziu os impostos sobre sal e farinha e modificou outros impostos; criou câmaras de comércio em várias cidades, inclusive na metrópole;  emitiu excelentes leis para os municípios governo, e reorganizou as de várias províncias, levantando a sua classificação para essa vantagem; introduziu grandes melhorias no código de processo, penal e civil; estabeleceu um fundo de amortização para a extinção gradual da dívida recém contraída", etc. (1)


Essas reformas estavam, no entanto, longe de satisfazer os revolucionários, pois o Papa era um convicto anti-liberal e não cedia em certos pontos que condenou, pelo que os movimentos revolucionários continuaram a avançar. Mas qual era, afinal, o problema do Papa com os princípios liberais?


Aos olhos de Igreja e "do Papa, o Estado tem um dever moral, não só de ser um arma para defender os bastiões, nem apenas para ser um contratador de policiais, nem é um dispositivo para tornar os cidadãos mais ricos, mas é chamado por Deus para ajudar as pessoas a se comportarem de acordo com as leis de Deus e homem. Portanto, tem o dever de coibir, não apenas os imorais, mas aqueles que promovem a imoralidade. Já que todos estão de acordo (poderia ele nestes tempos assumir) que o erro religioso leva à imoralidade porque se afasta da verdade que é causa e salvaguarda da observância da lei de Deus, o Estado deve impedir a promoção dos erros religiosos. Permitir que palestrantes ou escritores sejam livres para dizer o que não é verdade, que declarem que o preconceito racial, ou pederastia, ou pornografia, ou adultério, ou assassinato não sejam pecados, não pode ser o que Deus exige de qualquer Estado" (3)


No entanto, o catolicismo liberal, que negava isto, começava nesta altura a ganhar cada vez mais força. Os padres e muitos clérigos começavam a querer conformar-se com o "novo século" e os "novos princípios". Vemos isto em toda a parte, também no nosso Portugal muitos clérigos apoiaram a revolução de 1820 e quiseram uma constituição liberal. Mas especialmente na França, onde o liberalismo já existia há 50 anos, começava a ser aceito por muitos católicos. O Papa teve então a necessidade de mostrar aos católicos o caminho a seguir. 


Na França começou a tornar-se famoso um padre chamado Lamennais. Lamennais foi ordenado padre sem qualquer formação anterior e com o florescer da França de 1830 tornou-se um liberal radical: defendia a democracia, todas as liberdades sem limites, a separação do estado e da Igreja. "Lamennais parecia ser um padre político pregando a revolução e pretendendo que isso fosse a religião". O padre Lamennais decidiu ir a Roma convencer o Papa a apoiá-lo e "abençoar a democracia. (...) O Arcebispo Quelen de Paris disse-lhe na cara que ele não era um realista; que havia adotado a linguagem dos demagogos e elogiava a revolução e não havia chance de que Roma pudesse aprová-lo. (...) Antes da chegada de Lamennais, o embaixador francês em Roma recebeu uma garantia do secretário de Estado Bernetti de que o Papa não daria nenhuma aprovação a Lamennais. Gregório disse ao embaixador que considerava as doutrinas de Lamennais uma ameaça à paz da Igreja e da França, e que se sentiu pessoalmente ferido por alguns dos artigos de L'Avenir (o seu jornal revolucionário)."


Aqui chegamos à parte curiosa:


"Em 15 de março de 1832, após dois meses e meio de espera, eles obtiveram a sua audiência com o Papa. Foi muito surpreendente. Eles esperaram uma hora nas ante-salas. O cardeal francês Rohan (...) chegou e levou-os para uma pequena e modesta sala que era o escritório do Papa. Eles passaram pelo ritual, ajoelharam-se e beijaram-lhe os pés. Então eles levantaram-se e o encararam, e ele ficou de pé para enfrentá-los, vestindo uma batina branca lisa e com uma das mãos no bolso. Montalembert, foi movido pela sensação de que diante dele estava o maior poder entre as nações: 'a única autoridade no mundo que eu quero obedecer'. Eles conversaram amigavelmente - o Papa simples, quase sem dignidade, e não formidável, com um comportamento saudável, mas não espiritual, gentil e acolhedor. Por um quarto de hora eles conversaram sobre pessoas que conheciam e sobre Genebra, e da piedade dos católicos franceses, e de Michelangelo. Ofereceu-lhes então uma pitada de rapé e deu a cada um deles um medalhão de São Gregório, abençoou os terços que apresentaram e disse adeus graciosamente. Nenhuma palavra foi ditw sobre a missão para que eles vieram para Roma. 


Temos duas cartas de Lamennais sobre o Papa. Uma antes de o conhecer e uma depois. 


A de antes diz o seguinte:


"Ele é um bom monge. Não sabe nada do mundo. Não tem ideia de como a Igreja está. Ele é profundamente piedoso e isso o enche de uma atitude de coragem — ele prefere sofrer qualquer coisa a ferir sua consciência. . . Ele está rodeado de homens de negócios, vários deles leigos, para quem a religião não é importante; eles são ambiciosos, gananciosos, covardes, cegos e estúpidos como os eunucos do final do Império (Romano); é assim que este país é governado."


Na sua segunda carta "ele descreveu a tirania do governo papal nas Legações do Norte da Itália: como os exércitos do Papa tinham assassinado várias freiras e saqueado um mosteiro beneditino; como o déspota que tiraniza a Polônia é todo-poderoso no Vaticano; como a religião é decadente e os austríacos são inúteis - e Lamennais e seus simpatizantes devem lutar porque um dia um papa virá que trará um renascimento à Igreja. Tudo isso foi trazido aos olhos do Papa. (...)


Já quase todos os conselheiros do Papa estavam convencidos de que era impossível para Roma não dizer nada (evitar condenações). Se ele guardasse silêncio, seria levada uma grande parte do mundo a não desaprovar as doutrinas de Lamennais. 

Então chegou a condenação. A encíclica, quando veio, evitou condenar Lamennais pelo nome. Em vez disso, condenou a maior parte do que ele defendia como princípios gerais."


Esta é talvez a sua encíclica mais famosa e uma encíclica de uma importância inconcebível: Mirari vos. "Se quisermos formar uma concepção clara do espírito que invadiu a comitiva imediata de Gregório XVI, nós devemos ler a encíclica Mirari vos, que enviou a todos os patriarcas, arcebispos e bispos da Igreja Católica na festa da Assunção da Santíssima Virgem Maria, 15 de agosto de 1832. É uma continuação das declarações de Leão XII e Pio VIII, um elo na cadeia de declarações de guerra contra toda a sociedade moderna, que atingiu a sua expressão mais sonora na Encíclica e no Syllabus de Pio IX em 1864. Gregório reclama nesta carta sobre a maldade imprudente, a ciência desavergonhada e a licenciosidade sem limites, que prevalecem em todos os lugares. As coisas santas são desprezadas e o serviço de Deus ridicularizado. As Doutrinas Sagradas são falsificadas, e todos os tipos de erros são disseminados com a maior audácia. A cátedra de São Pedro foi rudemente sacudida, e o os laços de unidade tornam-se mais fracos a cada dia. A Igreja está entregue ao ódio do povo. Academias e escolas ecoam horrivelmente opiniões novas e inéditas, que não mais em segredo e por caminhos indiretos, minam a fé católica, mas travam uma guerra aberta e sacrílega contra esta; pois quando os jovens são corrompidos pelos princípios e exemplos de seus professores, então o desastre para a religião é tão grande e a desordem moral tão profunda, quanto é possível. E todas essas tribulações são devidas especialmente às sociedades secretas que são como uma pia de toda impiedade e blasfêmia." (4)


Aqui é a primeira vez que um Papa condena tão frontalmente todos aqueles princípios liberais. Numa altura em que começavam a haver desvios no caminho liberal, esta encíclica estabeleceu claramente qual era a posição que ia ser seguida de ali em diante. A partir de aqui já não há dúvidas de qual é a visão de tudo o que está a acontecer por parte da Igreja e da sua posição em relação ao que deve ser feito. Naturalmente que não foi do arbítrio pessoal do Papa, mas era a única posição possível, de acordo com a tradição católica. Analisemos a encíclica. 


De um modo geral "Mirari vos (15 de agosto de 1832) condenou a liberdade de consciência para todos (...), a liberdade de imprensa (...), a doutrina de uma revolução justa (...), a doutrina de que a Igreja e o Estado devem estar separado (...), a doutrina lamennaisiana de que os praticantes de todas as religiões devem ter os mesmos direitos legais no Estado (...) e a doutrina de que o povo é a fonte do poder no Estado.


Além disso, a encíclica falava em termos fortes - deprimentes- sobre o estado da sociedade.  Tal linguagem tornou-se um hábito com a Cúria do século XIX: 'A maldade é exultante. A ciência desavergonhada exulta. A licenciosidade exulta. A verdade está corrompida. Erros de todo tipo se espalham sem restrição. Homens perversos abusam Santas Leis, direitos, instituições e disciplinas. . . eles atacam a autoridade divina da Igreja . . .  um terrível desastre para a religião e a moralidade. . .  a destruição da ordem pública. . .' este tom, o lamento tinha raízes na tradição da Cúria. Mas a nova música da tragédia tornou-se característico da organização romana ao contemplar as maneiras pelas quais a Europa desenvolveu sua política, sua civilização e suas opiniões." (3) Não é obviamente sem razão que esta se tornou a linguagem da Cúria nos tempos modernos. 


Analisemos agora o próprio texto que é de grande riqueza. O Papa começa primeiro a falar sobre os mal que abalam a sua época (e que são o motivo do seu silêncio até aí). 


"A insolência dos ímpios que tentaram, de novo, arvorar a bandeira da rebelião, foi novo motivo de Nosso silêncio. E Nós, ainda que com tristeza indizível, vimo-Nos obrigado a reprimir, com pulso firme, (1 Cor 4,21), a contumácia daqueles homens, cujo furor se exaltava de mais a mais, longe de se abrandar pela constante impunidade e pela Nossa clemência."

Mas de que males fala exatamente o Papa? "Em verdade, triste e com o coração dolorido, dirigimo-Nos a vós, a quem vemos cheios de angústia, ao considerar a crueldade dos tempos que fluem para com a religião que tanto estremeceis. Na verdade, poderíamos dizer que esta é a hora do poder das trevas para joeirar como o trigo, os filhos de escol (Lc 22,53); 'a terra ficou infeccionada pelos seus habitantes, porque transgrediram as leis, mudaram o direito, romperam a aliança eterna' (Is 24,5). Referimo-Nos, Veneráveis Irmãos, aos fatos que vedes com vossos próprios olhos e todos choramos com as mesmas lágrimas. A maldade rejubila alegre, a ciência se levanta atrevida, a dissolução é infrene. Menospreza-se a santidade das coisas sagradas, e o culto divino, que tanta necessidade encerra, não é somente desprezado, mas também vilipendiado e escarnecido. Por esses meios é que se corrompe a santa doutrina e se disseminam, com audácia, erros de todo gênero. Nem as leis divinas, nem os direitos, nem as instituições, nem os mais santos ensinamentos estão ao abrigo dos mestres da impiedade.

Combate-se tenazmente a Sé de Pedro, na qual pôs Cristo o fundamento de sua Igreja; forçam-se e rompem-se, momentaneamente, os vínculos da unidade. Impugna-se a autoridade divina da Igreja e, espezinhados os seus direitos, é submetida a razões terrenas; com suma injúria, fazem-na objeto do ódio dos povos, reduzindo-a a torpe servidão. O clamoroso estrondo de opiniões novas ressoa nas academias e liceus, que contestam abertamente a fé católica, não já ocultamente e por circunlóquios, mas com guerra cura e nefária; e, corrompidos os corações dos jovens pelos ensinamentos e exemplo dos mestres, cresceram desproporcionadamente o prejuízo da religião e a depravação dos costumes. Por isso, rompido o freio da religião santíssima, somente em virtude da qual subsistem os reinos e se confirma o vigor de toda potestade, vemos campear a ruína da ordem pública, a desonra dos governantes e a perversão de toda autoridade legítima; e a origem de tantas calamidades devemos buscá-la na ação simultânea daquelas sociedades, nas quais se depositou, como em sentina imensa, quanto de sacrilégio, subversivo e blasfemo acumularam a heresia e a impiedade em todos os tempos."


O Papa depois de exortar os Bispos e os fiéis a estarem unidos à Cátedra de São Pedro, condena a ideia do progressismo ou do retorno a uma Igreja primitiva (ou o que eles imaginam como sendo a Igreja primitiva):

"Constando, com efeito, como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento (Sess. 13, dec. de Eucharistia in proœm.), que a Igreja recebeu a sua doutrina de Jesus Cristo e dos seus Apóstolos, e que o Espírito Santo a está continuamente assistindo, ensinando-lhe toda a verdade, é por demais absurdo e altamente injurioso dizer que se faz necessária uma certa restauração ou regeneração, para fazê-la voltar à sua primitiva incolumidade, dando-lhe novo vigor, como se fosse de crer que a Igreja é passível de defeito, ignorância ou outra qualquer das imperfeições humanas; com tudo isto pretendem os ímpios que, constituída de novo a Igreja sobre fundamentos de instituição humana, venha a dar-se o que São Cipriano tanto detestou: que a Igreja, coisa divina, se torne coisa humana (Ep. 52, edit. Baluz.)."


O Santo Padre, depois de uma breve defesa do celibato clerical e da indissolubilidade do Matrimonio, passa a condenar os erros liberais (iremos alterar a ordem da exposição da Encíclica para ser mais fácil):


Condenação do indiferentismo religioso:

Uma "causa que tem acarretado muitos dos males que afligem a Igreja é o indiferentismo, ou seja, aquela perversa teoria espalhada por toda parte, graças aos enganos dos ímpios, e que ensina poder-se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do reto e honesto. Podeis, com facilidade, patentear à vossa grei esse erro tão execrável, dizendo o Apóstolo que há um só Deus, uma só fé e um só batismo (Ef 4, 5): entendam, portanto, os que pensam poder-se ir de todas as partes ao porto da Salvação que, segundo a sentença do Salvador, eles estão contra Cristo, já que não estão com Cristo (Lc 11,23), e os que não colhem com Cristo dispersam miseramente, pelo que perecerão infalivelmente os que não tiverem a fé católica e não a guardarem íntegra e sem mancha (Simbol. Sancti Athanasii); ouçam S. Jerônimo, do qual se diz que quanto alguém tentara atraí-lo para a sua causa, dizia sempre com firmeza: O que está unido à Cátedra de Pedro é o meu (S. Hier., ep. 57). E nem alimentem ilusões porque estão batizados; a isto calha a resposta de Santo Agostinho que diz não perder o sarmento sua forma quando está amputado da vide; porém, de que lhe serve, se não tira sua vida da raiz? (In Ps. contra part. Donat.)."


Condenação da separação do estado e da Igreja:

"Mais grato não é também à religião e ao principado civil o que se pode esperar do desejo dos que procuram separar a Igreja e o Estado, e romper a mútua concórdia do sacerdócio e do império. Sabe-se, com efeito, que os amadores da falsa liberdade temeram ante a concórdia, que sempre produziu resultados magníficos, nas coisas sagradas e civis. (...)

O Papa ensina que os governos "não receberam (a autoridade) somente para o governo temporal, mas também para a defesa e guarda da Igreja. Saibam que, quando se faz em favor da Igreja, destina-se, ao mesmo tempo, ao bem-estar e à paz do império; convençam-se sempre mais que devem maior estima à causa da fé que à do reino, e que serão maiores se, segundo S. Leão, à sua coroa de reis se ajuntar a da fé. Já que têm sido constituídos como pais e tutores dos povos, proporcionar-lhes-ão verdadeira felicidade e tranquilidade, se dirigirem seus cuidados especialmente para conservar incólume a religião daquele Senhor, cujo poder está expressado naquela passagem do salmo: Rei dos reis e Senhor dos que dominam."


Condenação da liberdade de consciência:

"Dessa fonte lodosa do indiferentismo promana aquela sentença absurda e errônea, digo melhor disparate, que afirma e defende a liberdade de consciência. Este erro corrupto abre alas, escudado na imoderada liberdade de opiniões que, para confusão das coisas sagradas e civis, se estendo por toda parte, chegando a imprudência de alguém se asseverar que dela resulta grande proveito para a causa da religião. Que morte pior há para a alma, do que a liberdade do erro! dizia Santo Agostinho (Ep. 166). Certamente, roto o freio que mantém os homens nos caminhos da verdade, e inclinando-se precipitadamente ao mal pela natureza corrompida, consideramos já escancarado aquele abismo (Apoc 9,3) do qual, segundo foi dado ver a São João, subia fumaça que entenebrecia o sol e arrojava gafanhotos que devastavam a terra. Daqui provém a efervescência de ânimo, a corrupção da juventude, o desprezo das coisas sagradas e profanas no meio do povo; em uma palavra, a maior e mais poderosa peste da república, porque, segundo a experiência que remonta aos tempos primitivos, as cidade que mais floresceram por sua opulência, extensão e poderio sucumbiram, somente pelo mal da desbragada liberdade de opiniões, liberdade de ensino e ânsia de inovações."


Condenação da liberdade de imprensa:

Devemos tratar também neste lugar da liberdade de imprensa, nunca condenada suficientemente, se por ela se entende o direito de trazer-se à baila toda espécie de escritos, liberdade que é por muitos desejada e promovida. Horroriza-Nos, Veneráveis Irmãos, o considerar que doutrinas monstruosas, digo melhor, que um sem-número de erros nos assediam, disseminando-se por todas as partes, em inumeráveis livros, folhetos e artigos que, se insignificantes pela sua extensão, não o são certamente pela malícia que encerram, e de todos eles provém a maldição que com profundo pesar vemos espalhar-se por toda a terra. Há, entretanto, ó que dor! quem leve a ousadia a tal requinte, a ponto de afirmar intrepidamente que essa aluvião de erros que se está espalhando por toda parte é compensada por um ou outro livro que, entre tantos erros, se publica para defender a causa da religião. É por toda forma ilícito e condenado por todo direito fazer um mal certo e maior, com pleno conhecimento, só porque há esperança de um pequeno bem que daí resulte. Porventura dirá alguém que se podem e devem espalhar livremente venenos ativos, vendê-los publicamente e dá-los a tomar, porque pode acontecer que, quem os use, não seja arrebatado pela morte?

Foi sempre inteiramente distinta a disciplina da Igreja em perseguir a publicação de livros maus, desde o tempo dos Apóstolos, dos quais sabemos terem queimado publicamente muitos deles. Basta ler as leis que a respeito deu o V. Concílio de Latrão e a constituição que ao depois foi dada a público por Leão X, de feliz recordação, para que o que foi inventado para o progresso da fé e a propagação das belas artes não sirva de entrave e obstáculo aos Fiéis em Cristo (Act. Concílio Lateran. V, ses. 10; e Constituição Alexand. VI 'Inter multiplices').O mesmo procuraram os Padres de Trento que, para trazer remédio a tanto mal, publicaram um salubérrimo decreto para compor um índice de todos aqueles livros que, por sua má doutrina, deviam ser proibidos (Conc. Trid. sess. 18 e 25). Há que se lutar valentemente, disse Nosso predecessor Clemente XIII, de piedosa memória; há que se lutar com todas as nossas forças, segundo o exige a gravidade do assunto, para exterminar a mortífera praga de tais livros, pois o erro sempre procurará onde se fomentar, enquanto não perecerem no fogo esses instrumentos de maldade (Encíclica 'Christianae', 25 nov. 1776, sobre livros proibidos). Da constante solicitude que esta Sé Apostólica sempre revelou em condenar os livros suspeitos e daninhos, arrancando-os às suas mãos, deduzam, portanto, quão falsa, temerária e injuriosa à Santa Sé e fecunda em males gravíssimos para o povo cristão é aquela doutrina que, não contente com rechaçar tal censura de livros como demasiado grave e onerosa, chega até ao cúmulo de afirmar que se opõe aos princípios da reta justiça e que não está na alçada da Igreja decretá-la.


O Papa exorta os fiéis à sujeição às autoridades legítimas (condenando o espírito revolucionário) e conclui dizendo:

"Estes exemplos preclaros de inquebrantável sujeição aos príncipes, baseados nos santíssimos preceitos da religião cristã, condenam a insolência e a gravidade dos que, instigados por torpe desejo de liberdade sem freios, outra coisa não se propõem do que calcar os direitos dos príncipes e reduzir os povos a mísera escravidão, enganando-os com aparências de liberdade." Condenando, por consequência, aqueles ou aquelas associações que "simulando sentimentos de piedade e afeto para com a religião, mas na verdade possuídas inteiramente do desejo de novidades e de promover sedições em toda parte, pregam liberdades de tal jaez, suscitam perturbações nas coisas sagradas e civis, desprezando qualquer autoridade, por mais santa que seja".


É também importante referir que "a encíclica Mirari vos, que condenou Lamennais e o catolicismo liberal, também pretendia ser uma condenação da constituição livre que a Bélgica acabava de adotar; pois a constituição belga garante a todos os cidadãos liberdade de consciência que a encíclica chama de deliramentum, e aquela liberdade de imprensa sobre a qual Gregório XVI não usou linguagem menos forte." (4)


Lammenais, aceitou, primeiramente, o silêncio e parou a publicação do seu jornal revolucionário. Além disso, chegou a escrever ao Papa a dizer que aceitava o que estava escrito na Encíclica Mirari Vos. No entanto, passados três meses surgiu um livro que "pregava a democracia; a tirania dos reis; o absurdo das linhagens hereditárias dos reis; a opressão dos povos. Os seres humanos, parecia dizer, não têm governantes exceto Cristo, e nenhuma lei a seguir, exceto a da justiça e da fraternidade humana, e não podem obedecer a Deus sem desobedecer aos governos; que para sustentar sua tirania alistaram o clero dando-lhes dinheiro e honras e assim os padres se tornaram valetes dos reis em vez de servos de Cristo" (3). Este livro chamava-se "Paroles d'un croyant" e o Bispo Quelen de Paris rapidamente o associou a Lamennais. "O Papa ordenou ao cardeal Lambruschini que o lesse e relatasse, e o cardeal disse que o livro o enchia de horror."

O Papa achou, então, necessário emitir uma nova encíclica, "Singulari nos", na qual condenava as "Paroles d'un croyant" a resposta de Lamennais, a "Mirari vos"- "pequeno em tamanho mas grande em perversidade". Se na primeira vez o Papa não colocou nomes, aqui o Papa deixou claro quem condenava e deixou um claro anátema ao dito catolicismo liberal.


O Papa diz claramente:


"Estudamos o livro intitulado Paroles d'un croyant. Por Nosso poder apostólico, Nós condenamos o livro: (...) Ele corrompe o povo por um abuso perverso da palavra de Deus, para dissolver os laços de toda ordem pública e enfraquecer toda autoridade. Ele desperta, promove e fortalece sedições, motins e rebeliões nos impérios. Condenamos o livro porque contém proposições falsas, caluniosas e imprudentes que levam à anarquia; que são contrários à palavra de Deus; que são ímpios, escandalosos e errôneos; e que a Igreja já condenou."


É de notar que não é normal um Papa usar uma Encíclica para condenar uma só publicação. Normalmente só seria colocado no Index. Mas para Gregório XVI isto eram erros realmente graves que o horrorizavam e que não podia tolerar, especialmente numa altura em que tentavam de tudo para os empurrar para os Estados Papais. No entanto, o Papa também usou da sua misericórdia, não excomungou Lamennais, limitando-se a rezar pelo seu retorno. Infelizmente, Lamennais nunca retornou, ao contrário dos seus amigos que se submeteram. Lamennais deixou de ser católico e juntou-se à esquerda mais revolucionária.


Até aqui falamos sempre sobre como os Papas combateram os falsos conceitos modernos de liberdade e igualdade. No entanto, esses conceitos, como disse Leão XIII, são na verdade conceitos cristianíssimos. Foi a Igreja quem os defendeu contra o mundo pagão, ensinando que todos os homens são iguais perante Deus e que têm uma liberdade natural. Os revolucionários só deturparam esses conceitos. Gregório XIII foi um Papa que defendeu, como sempre a Igreja o fez, a verdadeira liberdade, combatendo a escravidão (não podemos esquecer que foi a Igreja que criou uma civilização sem escravidão, algo que nunca se viu no mundo pagão, e como, aliás, a escravidão só retornou após o renascentismo retomar o espirito pagão). Em 1839, através da sua Encíclica In Supremo Apostolatus o Papa condenou a escravidão: "julgamos que pertencia à nossa solicitude pastoral esforçar-nos para afastar os fiéis do comércio desumano de escravos de negros e de todos os outros homens."


A sua voz, como sempre, foi ignorada. Os povos europeus continuaram a combater as liberdades legítimas e defender liberdades ilegítimas: combater as liberdades legítimas que Deus concedeu ao homem e defender as liberdades egoístas que ignoram Deus, a Verdade, o Bem e o Bem Comum.


Outra liberdade legítima ignorada e defendida pelo Papa foi a liberdade da Igreja e os seus direitos. Lemos na sua encíclica Commissum divinitus, sobre a Igreja e o estado:


"Aquele que fez tudo e que governa por um arranjo prudente quis que a ordem florescesse em Sua Igreja. Ele queria que algumas pessoas estivessem no comando e governassem e outras fossem sujeitas e obedecessem. Portanto, a Igreja tem, por sua instituição divina, o poder do magistério para ensinar e definir assuntos de fé e moral e interpretar as Sagradas Escrituras sem perigo de erro. Também tem o poder de governar para preservar e fortalecer na verdadeira doutrina aqueles que acolhe como filhos e fazer leis sobre todas as coisas que dizem respeito à salvação das almas, ao exercício do ministério sagrado e ao culto divino. Quem se opõe a essas leis se torna culpado de um crime muito grave.


Este poder de ensinar e governar em matéria de religião, dado por Cristo à sua Esposa, pertence aos sacerdotes e bispos. Cristo estabeleceu esse sistema não apenas para que a Igreja não pertencesse de forma alguma ao governo civil do estado, mas também para que pudesse ser totalmente livre e não sujeita a nenhum domínio terreno. Jesus Cristo não confiou a sagrada responsabilidade da doutrina revelada aos líderes mundanos, mas aos apóstolos e seus sucessores. (...) Assim, se algum poder secular domina a Igreja, controla sua doutrina ou interfere de modo que não possa promulgar leis concernentes ao santo ministério, culto divino e bem-estar espiritual dos fiéis, o faz em prejuízo da fé e derrubando da ordenança divina da Igreja e a natureza do governo. (...)


Esses princípios são firmes, imutáveis ​​e apoiados pela autoridade e tradição dos antigos Padres. O bispo Ossius de Córdoba escreveu ao imperador Constâncio: “Não vos envolveis em assuntos eclesiásticos nem nos dês ordens a respeito desses assuntos. Mas aprenda isso conosco: Deus lhe dá o império; Ele confia o poder eclesiástico a nós. Quem secretamente tenta arrebatar o império de vós se opõe a Deus. Da mesma forma, tome cuidado para não atrair o poder eclesiástico para si mesmo e se tornar culpado de um grande crime”. (...)


É perverso se a autoridade civil se apropriar de qualquer coisa neste santo ofício! É perverso se a autoridade civil prescrever algo a respeito ou der ordens aos ministros dos sacramentos! É perverso se tenta com suas leis se opor às regras que nos foram transmitidas por escrito ou por tradição oral da Igreja primitiva sobre a distribuição dos sacramentos ao povo cristão. Nosso predecessor São Gelásio disse em sua carta ao imperador Anastácio: “Vós sabeis, filho misericordioso, que tendes permissão para governar a raça humana. No entanto, submeta-se aos bispos e procure neles os meios de sua salvação. Ao receber os sacramentos celestiais e distribuí-los adequadamente, sabeis que deveis ser sujeito em vez de governar. Sabei, portanto, que nessas coisas dependeis do julgamento deles e que eles não querem ser submetidos ao vosso poder”. (...)


Jesus Cristo conferiu à Sua Igreja o poder supremo de administrar a religião e governar a sociedade cristã."


Mas mesmo depois de Gregório ter dito a toda a Europa que a liberdade da Igreja e os seus direitos não poderiam ser violados, a perseguição continuava mais forte do que nunca e a Europa afundava-se cada vez mais naquele laicismo e anti-clericalismo.


E o mal espalhava-se por toda a Europa e por todo o mundo. Mesmo depois de Gregório XVI ter condenado os princípios liberais e chamado os povos à verdade cristã, o liberalismo na sua revolta contra a civilização católica alastrava-se por toda a parte. A Igreja sofria e a voz do Papa "clamava no deserto".


"Espanha, como veremos, sentiu o choque da revolução. França havia deixado ali sementes de irreligião, as doutrinas que produziu a Revolução Francesa."(1)

"A regente, a rainha Maria Cristina, conseguiu, durante a menoridade de sua filha, a rainha Isabella, realizar um programa anticlerical. Em 1835 as ordens religiosas foram suprimidas. Em seguida, o clero secular foi atacado: vinte e duas dioceses ficaram sem bispos, padres jansenistas foram admitidos na comissão nomeada para "reformar a Igreja", os salários dos padres foram confiscados. Em 1840, os bispos foram expulsos de suas sedes e, quando o núncio protestou contra atos arbitrários do governo no poder, foi conduzido à fronteira. A paz não foi restaurada à Igreja na Espanha até depois da morte de Gregório." (2)


"Portugal passou por uma guerra civil semelhante. D. Pedro, sucedendo a D. Miguel (a quem Gregório XVI chamou de o Rei mais católico que tem em toda a Cristandade) suprimiu, em 1834, as ordens militares e religiosas, apoderou-se dos seus bens e dos da Igreja, privando o clero dos dízimos e reduzindo-o a grande miséria.

A 1 de agosto de 1834, o papa, numa alocução, deplorou a triste condição da Igreja em Portugal, e ameaçou o governo com as censuras pronunciadas pelo Concílio de Trento contra os espoliadores da Igreja, os inimigos de liberdade e do poder espiritual. No entanto, o Patriarca de Lisboa parecia disposto a consagrar os bispos nomeados por D. Pedro. Mas a morte daquele príncipe, em setembro, interrompeu esse curso. A rainha Maria da Glória ascendeu ao trono sob o domínio inglês, e as aflições da Igreja aumentaram."(1)

"Em Portugal, a ascensão da Rainha D. Maria da Glória deu origem a uma explosão de legislação anticlerical. O núncio em Lisboa foi ordenado a deixar a capital e a nunciatura foi suprimida. Todos os privilégios eclesiásticos foram abolidos, os bispados ocupados pelo ex-rei D. Miguel foram declarados vagos, as casas religiosas foram suprimidas. O papa protestou no consistório, mas o seu protesto apenas levou a medidas mais severas, e nenhum esforço de sua parte foi bem-sucedido até 1841, quando a crescente inquietação popular forçou a rainha a chegar a um acordo." (2)


"A Suíça entrou no caminho da revolução. Mesmo entre os católicos surgiu um partido que clamava por independência - isto é, sujeição da Igreja ao Estado. Sob o impulso desse espírito, os cantões do movimento se reuniram em Baden, em 1834, e, sem levar em conta nenhum dos tratados ou obrigações existentes, redigiram pretensos artigos de conferência, sujeitando completamente a Igreja ao controle do Estado. Gregório XVI, cheio de senso de dever, imediatamente protestou contra esses artigos e os condenou em uma encíclica dirigida a todo o clero suíço, em 17 de maio de 1835; mas, apesar de seu protesto, os artigos foram aplicados em vários cantões. O partido católico reuniu-se e, sob os jesuítas e outros religiosos zelosos, esforçou-se para deter, por meio de instituições educacionais superiores, a marcha da irreligião. O partido infiel, auxiliado pelos cantões protestantes, resolveu então destruir todas as casas religiosas." (1)


"A Prússia recebeu, pelo Congresso de Viena, grandes províncias católicas. Nessas 

dificuldades surgiram. Os católicos protestaram contra a organização militar e eclesiástica do governo, contra a exclusão dos católicos do cargo, contra a interferência nas eleições dos bispos." (1)

Na Prússia também havia o problema dos casamentos mistos. No fim, a Prússia acabou por retirar um arcebispo à força da sua sede, por não aceitar sujeitar-se ao estado como desejavam os liberais que a Igreja fizesse e, ao invés, escolher manter-se leal ao que tinha dito Pio VIII contra a regulação estatal dos casamentos mistos. "O papa Gregório XVI fez uma alocução aos cardeais (10 de dezembro de 1837),20 que os prussianos pisotearam as liberdades da Igreja, que o cargo de bispo foi tratado com total desrespeito e que os justos direitos do papa foram derrubados." No fim Igreja graças a Gregório XVI venceu: O rei Frederico Guilherme IV, que se tornou rei da Prússia em 1840, queria tratar os católicos com respeito e resolver a disputa que dividia seu reino. Ele abriu negociações com Roma. Gregory XVI comportou-se diplomaticamente. Mas, com exceção da recusa prussiana de restabelecer Droste zu Vischering, foi uma vitória total da Igreja sobre o Estado. A Igreja superou os casamentos mistos; o governo retirou qualquer pretensão de interferir nas regras da Igreja e concordou com a livre comunicação entre Roma e as autoridades católicas na Prússia". (3)

Em Itália, avançava "aquele carbonarismo cujo único sonho era uma Itália unida numa república pagã erguida sobre as ruínas de um cristandade destruída foi uma das dificuldades indubitáveis. Ele viu claramente a total impiedade do movimento, e viu isso quando os protestantes idiotas do movimento mal sonhavam com a ajuda que davam para a verdadeira conspiração anti-cristã, numa última revolta do paganismo, que, derrubado uma vez sob Constantino, reunido naquele elemento alemão onde nunca foi totalmente extinto e quase subjugou o Cristianismo no século XVI, para reaparecer no século XVIII, auxiliado pelos elementos adormecidos do paganismo latino.

Mas ao perceber seu perigo, ele foi firme, repressivo, ele sabia que tinha de lidar com um inimigo que era impiedoso, inescrupuloso, que nenhum juramento poderia obrigar, nenhum favor ganhar." (1)


E o fim do seu Papado, assim como o início, foi passado com revoluções na Itália. Este movimento realmente avançava e entrava dentro da Igreja. Houve novas revoltas, execuções, novos manifestos levados ao Papa a pedir reforma… A situação parecia estar nos limites, e o Papa tinha consciência disso. "Em 2 de maio de 1846, ele convocou Cretineau-Joly, que tem sido tantas vezes mencionado, para falar com ele sobre um assunto importante. Cretineau Joly veio, e uma conversa se seguiu, no decurso da qual o Papa doente confidenciou ao

historiador da guerra de La Vendee o que o próprio chama de testamento político. «A situação da Europa, e especialmente da Itália» disse o Papa «não me permite esperar que o próximo papa tenha um reinado mais pacífico do que eu tive. Há tempestade no ar, logo as revoluções começarão e eu não estarei aqui para mantê-los para acalma-las»". (4)

Assim foi. O Papa fez a sua parte até ali mas agora cabia ao seu sucessor continuar o seu trabalho. E realmente, Pio IX, como veremos, deu continuidade à obra de Gregório XVI. 


Conclusão

Este foi Gregório XVI, o homem que no meio de todas estas catástrofes anti católicas teve coragem de levantar o estandarte de Cristo.


Homens assim costumam ser caricaturados pelos liberais como homens maus, quadrados, que só vêem o básico e não conseguem ver nada além do básico, sem estudos, etc. 


Gregório XVI, em parte, teve esse destino, mas gostaríamos de concluir com uma visão geral de Gregório XVI e do seu pontificado que nos mostra que isso é falso. Gregório XVI ficou lembrado por muitos como um Papa "quadrado, ultraconservador", alguém que não fez nada de bom e se limitou a querer que tudo ficasse igual. Realmente, não há duvidas, Gregório XVI teve a coragem de levantar o estandarte de Cristo para o mundo (e para a Igreja, indicando-lhe o caminho a seguir contra certos desvios conformistas): "Dotado de raros talentos, unindo prudência à energia, vasto conhecimento teológico a variada erudição profana, Gregório aderiu especialmente à preservação do dogma da Igreja Católica do assalto de novas teorias, e esforçou-se por ampliar o conhecimento e a influência do  Igreja visível até os confins do globo habitável.  Daí suas severas prescrições contra a heresia, o erro, as sociedades secretas, sua proibição do comércio de escravos, seus protestos em favor dos perseguidos bispos alemães;  daí a proteção que concedia aos que sofriam pela fé, e sobretudo pelas missões estrangeiras, cujo êxito lhe parecia depender da presença dos bispos; daí, também, sua ereção numerosa de novas sés." (1)


Naturalmente foi esse o ponto que nos interessou mais mostrar, e realmente é verdade, ele não cedia a fé católica, mas para não se ficar com a ideia de que era alguém quase "quadrado", que não fez nada e só quis que tudo ficasse igual, além das reformas que já vimos que trouxe, Gregório XVI "era bom em instituições de caridade; ele visitou hospitais durante a epidemia de cólera, ordenou que o desemprego terminasse (…), defendeu a vacinação e tirou Galileu do índice de livros proibidos. Incentivou a arte, a arquitetura, pintura e os estudos. (…) Este papa importava-se com vasos etruscos, melhores museus, as muito negligenciadas catacumbas e a restauração do Coliseu." (3)


Foi um homem humilde: "Aquela humildade pela qual ele foi caracterizado ao longo da vida foi fortemente manifestada em seus momentos de morte.  'Desejo morrer como um monge e não como um soberano", foi seu desejo expresso, sua humilde observação na noite antes de sua morte".


E também um homem inteligente e bondoso: "Ele era um estudioso talentoso, eminentemente versado em línguas, literatura e ciência. Embora como teólogo dificilmente pudesse ser superado, ele tinha um gosto particular pela matemática e pela filosofia natural e tinha um interesse especial em conversar com aqueles que eram hábeis nos vários ramos dessas ciências. No entanto, tal era sua modéstia e hábitos retraídos que, se tivesse sido deixado por conta própria, ele nunca teria deixado a quietude de seu mosteiro.  Antes de sua elevação ao papado, já havia dado ao mundo uma obra erudita e muito estimada, intitulada “O Triunfo da Santa Sé e da Igreja”, que teve várias edições. Seu aprendizado brilhou mais intensamente porque acompanhado de grande humildade.  Mesmo quando elevado ao trono pontifício, ele apenas mudou a forma de seu vestido, continuando em privado seu modo de vida habitual (continuou com os mesmos horários de acordar cedo como um monge, apesar de ninguém o acompanhar nisso) e mantendo no quarto o catre e os móveis do simples mor. A grandeza de sua posição, longe de inflamar seu humilde espírito com sentimentos  de orgulho, serviu apenas para tornar a virtude mais evidente, dar era o seu maior deleite, pois esbanjava seus recursos em missões necessitadas, nos pobres e nas igrejas carentes.  Sua bondade e caridade eram sentidas por todos, até mesmo pelo mais baixo de seus súditos. Ele era acessível a todos e recebia visitantes quase a qualquer hora, de manhã, à tarde e à noite.  Os estrangeiros, sem respeito aos seus sentimentos religiosos, eram recebidos com igual bondade e afabilidade, tanto que todos saíam de sua presença com vivas emoções de respeito e prazer, os americanos, de modo especial, universalmente atestam a gentileza com que foram recebidos e o interesse manifestado por Sua Santidade em suas instituições.  No inverno, ele dava audiência a até sessenta estrangeiros por dia, sem levar em conta o credo. Levantava-se cedo pela manhã e, tendo celebrado a missa e cumprido os outros deveres diários, estava pronto para tratar dos negócios e dar recepções à primeira hora.  Ele desejava estar sempre bem informado sobre todos os assuntos e os tratava com a mais madura consideração. Em todos os casos importantes e duvidosos, ele exigiria que os prelados da Igreja e os ministros de estado deixassem com ele todos os papéis e documentos a respeito deles, para que ele mesmo pudesse examiná-los e avaliar sua importância com maturidade. Ele sempre foi controlado e dotado de uma memória feliz, o que lhe permitia referir-se facilmente a assuntos de negócios que antes estavam sob sua consideração.


 As artes e as ciências encontraram nele, não apenas um fervoroso devoto, mas um patrono caloroso e útil.  Ele construiu uma nova ala ao museu do Vaticano, e estava empenhado na construção de um novo museu no palácio de Latrão.  Um grande túnel duplo construído através da colina de Tivoli, para dar uma direção diferente ao rio Anio e, assim, livrar a cidade da ruína ameaçada, será um monumento perpétuo de sua munificência. Ele aumentou a beleza de Roma com a construção de vários edifícios e ornamentos de mármore, e deu à escola de belas artes, ligada à Pontifícia Academia de São Lucas, um novo e magnífico local. Ele abriu, nas proximidades da capital, um dos célebres portos marítimos da Roma antiga;  promoveu os interesses da agricultura e, em particular, determinou que uma parte dos jovens do asilo de Santa Maria degli Angeli se dedicasse ao pastoreio e à agricultura.


A sua pessoa era alta, seu aspeto venerável.  Sua vida sempre foi inocente, imaculada e regular.  Ele era piedoso, erudito liberal (no sentido de estudantes das artes liberais)- o estudante das artes e ciências, o firme defensor dos direitos eclesiásticos. (E, repetindo aquela frase com que começamos o artigo): Cheio de fé, governou a Igreja por quinze anos com a caridade de um apóstolo e o coração de um pai." (1)


Não acreditemos, portanto, nessa ideia que os liberais querem passar de gregório XVI. Lembremo-lo como realmente foi: um homem humilde, inteligente e que levantou o estandarte de Cristo.


Para terminar, gostaríamos de deixar o apelo que ele também nos deixou na encíclica Commissum divinitus:


"Esforcem-se para que todos pensem a mesma coisa e ninguém se deixe enganar por ensinamentos estranhos. Que todos evitem as novidades profanas, apeguem-se à fé católica e submetam-se ao poder e à autoridade da Igreja. Cada pessoa deve ligar-se cada vez mais firmemente a esta Sé que o forte Redentor de Jacó colocou como um pilar de ferro e como um muro de bronze contra os inimigos da religião. Devem receber esses inimigos como pessoas que devem ser educadas na lei de Cristo e da Igreja."


"Nós os exortamos a lutar pela causa de Deus e da Igreja com maior zelo à medida que os ataques do inimigo se tornam mais severos. É vosso dever permanecer como uma parede para que nenhuma outra fundação possa ser colocada além daquela que já foi colocada. Também é vosso dever manter a fé imaculada. Há outro encargo sagrado que devem defender firmemente, a saber, as santas leis pelas quais a Igreja estabelece sua disciplina e os direitos desta Sé Apostólica. (...) Desembainhem a espada do espírito que é a palavra de Deus. Denuncie, implore, repreenda com toda a paciência e ensino. Trabalhe e lute pela religião católica, pela autoridade divina e pelas leis da Igreja, pela Sé de Pedro e sua dignidade e direitos 'para que não apenas os que são justos permaneçam seguros, mas também para que aqueles que foram enganados pela sedução possam ser chamado de volta do erro.'"


Nota: para marcas as referencias usaremos números. 1-Lives and Times of the Popes, Artaud de Montor; 2- Enciclopédia católica; 3-A History of the Popes 1830-1914, Owen Chadwick; 4- The history of the Papacy in the XIX Century, Dr. Frederik Nielsen


Miguel


Ad majorem Dei gloriam

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