História da decadência ocidental (Parte 1: antes do protestantismo)
(Imagem da queda de Constantinopla, data tradicionalmente usada para marcar o fim da chamada "Idade Média")
Introdução:
Afirma o Russell Kirk que “o restabelecimento das normas só pode começar quando nós, modernos, viermos a compreender a maneira pela qual nos afastamos das antigas verdades”.
Para compreender o mundo moderno, os seus erros e soluções, temos de entender como foi construído o moderno, ou seja, quais foram as ideias que o fundaram. Hoje propomo-nos a fazer um estudo exatamente sobre esse tema: a história da decadência intelectual do ocidente, que ideias fundaram o mundo moderno e que ideias, então, o poderão salvar.
Os antecedentes da reforma:
É bem sabido que a reforma foi o primeiro grande golpe na cristandade. Não só o primeiro, mas o mais basilar, o que abriu as brechas para os outros. No entanto, a reforma não surgiu do nada. Nesta primeira fase veremos como no final da Idade Média começaram a surgir os sintomas da crise que se abeirava. Ou seja, o que é que aconteceu e surgiu no fim da Idade Média, que já eram sintomas e causas da decadência, e que por fim levariam à reforma protestante.
Os autores concordam em afirmar que o declínio começa fundamentalmente no século XIV e XV. Para Belloc, este declínio vem do processo oposto ao da criação da cristandade. Se a cristandade foi criada numa fase de declinio material acompanhado de progresso espiritual, a mesma caiu num processo oposto: progresso material junto com decadencia espiritual (assim caem todas as sociedades, como nos mostra o mito da Atlântida de Platão).
É preciso, antes de começar, ter em consideração que este período ainda é um período da cristandade, com muita coisa boa e santa. Os homens queriam aprender e descobrir mais coisas, havia um espírito de aventura, havia arte, escultura e arquitetura, etc. No entanto, certas coisas começaram a seguir o caminho errado.
Em primeiro lugar veremos as causas da decadência (apesar de que as causas, ao falar de decadência, são ao mesmo tempo sintomas e causas: são más em si mesmas que geram males ainda maiores).
A primeira causa, como diz Belloc:
"A unidade, o próprio princípio de vida da cristandade - unidade de doutrina e unidade de disciplina e organização no campo da religião - foi abalada." (3)
Esta é a causa principal que dá origem às demais, a semente que faz florescer os outros erros. A cristandade baseava-se na unidade de fé, fundamentada no papado. Era essa a base da civilização. É Dawson quem explora muito este princípio:
(A perda da unidade deve-se) "de modo negativo, à perda da unidade internacional e da autoridade transcendente supra-política do papado; e de modo positivo, ao crescimento dos Estados modernos e da unidade política nacional." (4)
"A ascensão das monarquias feudais nacionais no Ocidente já havia começado a ameaçar a supremacia da Igreja internacional. Ao longo de toda a segunda metade do século XIII, a França crescera em poder e prosperidade, não era mais uma confederação livre de principados feudais. Era um Estado nacional, a unidade que personificava não somente a monarquia, mas os Estados Gerais, a assembleia representativa dos estamentos do reino, que surgiram pela primeira vez em 1302, sete anos após surgir a organização similar do Parlamento inglês. Além disso, o rei não governava mais por meio dos grandes nobres estadistas e dos bispos. Os postos foram tomados por uma classe oficial de profissionais e de advogados, muitos deles homens de origem humilde do Sul da França, que adquiriram, pelos estudos da lei romana, os ideais de supremacia real e de governos soberanos absolutos." (4)
Isto vê-se pela queda do espírito de cruzado. O espírito de cruzado é o espírito de que acima de reinos, acima de servidores dos nossos reis, somos parte da cristandade e servidores do Rei dos reis.
"A queda de Acre, o último remanescente do território cristão na Palestina, em 1291, marca a decadência do espírito cruzado, e a destruição, na França, da grande Ordem dos Templários por Filipe IV (1268-13 14), o Belo, que reinou de 1307 a 1312, foi um prenúncio ainda mais sintomático de um novo espírito." (4)
Como já vimos, o Papado era a base desta unidade, e o Papado sofreu muito durante este tempo.
Esta perda da autoridade Papal, substituída pela autoridade nacional, constata-se pelas lutas que começaram a haver entre o Papado e os Reis. Lembramos a luta entre Bonifácio VIII, defensor da supremacia Papal, e Filipe IV de França. Podemos dizer que a luta foi ganha pela França, que moveu o Papado para Avignon. Foi também uma altura em que a Igreja tinha grande riqueza. Essas duas coisas contribuíram para a diminuição da sua autoridade moral e do seu prestígio.
"Na época da questão das investiduras, a consciência da Europa estava ao lado do papado contra o governo feudal secularizado; mas agora o perigo da secularização vinha do interior, do luxo da corte de Avignon e da enorme evolução do sistema internacional de finanças papais. O partido reformador começou a olhar para o governo como o poder que poderia libertar a Igreja do íncubo da riqueza material, deixando-a livre para se dedicar, com todas as forças, à função espiritual." (4)
Esta luta veio de uma questão simples. A Igreja tinha a Cúria e a Santa Sé que governavam mas precisavam de um sistema financeiro para a sustentar. Enquanto toda a sociedade era agrária e feudal não havia problema, porque os reinos não tinham uma organização financeira e administrativa a precisar de sustento.
"Quando os reinos ocidentais vieram a desenvolver um sistema financeiro e administrativo eficiente, viram-se face a face com um sistema pontifício altamente organizado. Como resultado, a chancelaria real e a papal reivindicavam jurisdição nos mesmos casos e o erário pontifício e o real reclamavam os direitos de tributação sobre as mesmas fontes de receita." (4)
É aí que surge o conflito:
"Caso as pretensões do papado, como reclamadas, por exemplo, por Bonifácio VIII na bula Clericis Laicos (1296), fossem plenamente aceitas, qualquer sistema de cobrança de imposto nacional teria se tornado impossível, e igualmente impossível seria o direito papal de nomear os próprios bispos e dignitários, numa época em que os bispos e abades detinham altos cargos públicos nos reinos nacionais. Por outro lado, se a posição regalista dos advogados dos reis fosse aceita, o governo central da Igreja teria sido destituído dos meios econômicos de existência." (4)
Além disso, a usurpação do Papa, em avignon por França, por uma parte da cristandade, não podia ser aceita pelo resto. Seguiu-se uma época de contínuos antipapas e divisões na cristandade. Seguiram-se épocas de alianças e rivalidades. Quando duas partes da Cristandade estavam em guerra, recusavam a autoridade de um papa e aceitavam a de um antipapa. Isto foi uma ferida no prestígio do papado, na cabeça da sociedade cristã, das suas raízes. Quando finalmente voltou a haver um Papa, ele já não tinha o mesmo papel na civilização que antes, já não havia a mesma unidade da cristandade.
Isso também contribuiu para o surgimento das consciência nacional. Antes os povos viam se mais como parte da cristandade, da civilização católica, do que da sua nação. Aqui começa a surgir a consciência da nação com diferentes hábitos e tradições, que contribuiu para a falta de união.
Diante deste conflito financeiro e de um certo luxo decadente na Igreja aumentaram muito as críticas à Igreja e um certo espírito de revolta contra a mesma.
Neste sentido, surge também Guilherme de Ockham, que liderando intelectualmente a sua época, substituindo a escolástica que dominou as universidades pelos dois séculos anteriores pela sua nova filosofia- substituindo a via antiqua pela via moderna- apelou, junto com o superior dos franciscanos, à corte de Avignon para o julgamento da Igreja universal, como representada pelo Conselho Geral.
Da sua filosofia, o nominalismo, descreve Dom Marcel Lefebvre os frutos: "nominalismo surgido com a decadência da Idade Média (séc. XIV) (...) conduz tanto Lutero com sua concepção puramente extrínseca e nominal da Redenção, como a Descartes, com sua ideia de uma lei divina indecifrável submetida somente ao arbítrio da vontade de Deus." (1)
"O fato de tal homem ter rompido com o papado de Avignon e dedicado os últimos vinte anos de sua vida a apoiar a causa do poder temporal contra tal papado, na Alemanha e na Inglaterra, e advogar uma nova teoria da Igreja e de sua autoridade, demonstra a seriedade da situação."
Além disso, o crescimento económico que se tinha registado do século XI ao XIII, "graças ao revigoramento do comércio e ao movimento de colonização do interior que criou novas vilas nas florestas e terras devolutas", começou a decair e foi substituído por uma decadência económica. A peste negra, a guerra dos 100 anos, invasões estrangeiras, destruição de igrejas e mosteiros... Tudo isso contribui para a desmoralização da Igreja e da cultura cristã em geral.
A peste negra em especial contribuiu para a desmoralização da Igreja. Os bons padres, os que foram salvar as pessoas que precisavam dos sacramentos, morreram. Ficaram os cobardes que fugiam. Surgiu, tambem, um grande desejo de viver o momento e ignorar os destinos eternos e as leis morais.
Vem então também o grande cisma do ocidente: "A cristandade estava dividida, não por diferenças teológicas como na Reforma Protestante, mas por uma questão puramente jurídica sobre qual dos dois papas rivais era o legítimo. A opinião pública protestou demasiado alto contra os abusos do regime de Avignon. Nesse momento, a sociedade se via diante de dois sistemas idênticos, cada um alegando ser o único, de modo que todos os males do período anterior foram, com precisão, duplicados."
De 1378 a 1417, 39 anos, a cristandade esteve dívida entre dois papas. Concílios eram convocados para eleger novos papas, reinos, conforme os seus interesses, escolhiam entre quem obedecer. Por vezes elegia-se ainda um terceiro Papa.
Os danos do cisma são inexplicáveis. Para uma civilização que há centenas de anos tinha como centro o Papa, essa divisão foi catastrófica. Contribui para o fim do sentimento de cristandade e o surgimento de sentimentos nacionais de divisão e sentimentos antipapais.
Sem unidade e sem autoridade, surgem cada vez mais teorias, a decadência, etc.
Ao mesmo tempo, as universidades, especialmente a de Paris que era um dos centros intelectuais da cristandade, começaram-se a curvar às ideias de Ockham.
Os anos seguintes também foram de lutas internas da Igreja consequentes desse espírito anti papal. Foram os tempos de luta contra a heresia conciliarista. Também aí foram eleitos antipapas no norte.
Surgem também novas heresias, como John Wycliffe, que obteve proteção de nobres em Inglaterra como John de Gaunt. A luta contra a riqueza da Igreja e a sua submissão ao estado já estão presentes nele. É a semente que vai culminar por fim na reforma anglicana: igreja inglesa e confisco da propriedade da Igreja em Inglaterra.
Mas as suas ideias não ficaram só por Inglaterra, espalharam-se por toda a Europa. Foram acolhidas especialmente na universidade de Praga, outro centro da intelectualidade ocidental. Surgiu lá um movimento ao mesmo tempo nacionalista e religioso que culminou com Jan Hus, um dos pensadores mais influentes da tchequia, queimado. Os alemães foram expulsos da universidade e o povo num movimento nacionalista aclamou o seu mártir, o seu herói nacional. Foi o primeiro movimento religioso-nacionalista que ameaçou a cristandade.
Mas o mundo já estava diferente. Tinha passado do "mundo dos escolásticos para o dos humanistas, do mundo das monarquias feudais para o das Cidades-Estado. Saíra das sombras outonais do Norte godo para a primavera da Renascença italiana."
No fim disto tudo, e também devido às novidades italianas, o papado ficou cada vez mais absorto na pequenez do mundo da política italiana. Não restam dúvidas que os papas da Renascença eram generosos patronos das artes e da literatura, mas igualmente o eram os príncipes italianos, e quanto mais êxito tinha o papado em afirmar seu poder e prestígio temporais, mais se assemelhava aos demais principados italianos. Os perigos da secularização nunca foram tão grandes (...) Tal situação chegara ao fim com a intervenção dos imperadores germanos e por conta da reforma do monaquismo no Norte da Europa. Nesse momento, mais uma vez, os exércitos do Norte invadiram a Itália e as rivalidades e ambições dos principados italianos foram obscurecidas e absorvidas por um conflito mais amplo entre as grandes potências europeias."
Além disso, "a estrutura orgânica da Igreja Católica foi enfraquecida". (3)
Primeiro, por si só essa falta de união resulta numa queda na autoridade moral da Igreja.
Além disso, houve o surgimento (ou o aumento) de superstições.
O surgimento de superstições, não na doutrina, mas entre as pessoas. Também na história, quando mitos se começaram a tomar como realidade histórica. E muitos começaram a associar as superstições com a religião, então a luta contra a superstição, para esses, torna-se a luta contra a religião.
Isso junto com o surgimento de novas descobertas, que por vezes punham em questão antigas crenças, começou a surgir a dúvida.
Surgiram heresias que se espalharam na cristandade pondo em cheque também essas crenças e pulverizando a união da cristandade.
Assim, com a decadência da autoridade moral aumenta a autoridade por meio da força. Não é por si só algo condenável, mas a força é necessária quando a autoridade moral decai, já num estado de decadência. E, se por vezes ela pode conseguir destruir o processo de decadência (assim Portugal manteve-se sem protestantismo por grande influência da inquisição), noutras faz surgir o sentimento de opressão, e, por consequência, o desejo de libertação.
Tudo isto foi acompanhado pelo surgimento da imprensa, que serviu como grande fonte de publicidade e agitação no meio deste mundo já meio caótico em ideias, heresias, revoltas e inovações.
O ambiente já era péssimo, havendo um grande sentimento de revolta. Tudo ficou pronto para uma explosão, e a explosão aconteceu.
Renascentismo:
Ao mesmo tempo que tudo isto acontece e que a sociedade começa a decair, surge um novo movimento que, apesar de não ser anti-cristão, contribui, como veremos, para criar uma nova cultura que abre portas para o protestantismo já preparado pela decadência geral.
Comecemos por analisar como surgiu e o que foi o renascentismo.
A cultura medieval foi formada no norte da Europa:
"Foi nesse local que foram lançados os fundamentos da cultura medieval pela cultura carolíngia, essencialmente agrária e criação da Igreja e da nobreza territorial. Mesmo após o século XI, quando novas cidades e comunas começaram a se espalhar no Norte, tal fato não alterou o caráter predominantemente rural da cultura feudal nortista, que sobreviveu à própria Idade Média." (4)
Na Itália, no entanto, as cidades eram predominantes. E mais: "Cidades marítimas como Veneza, Pisa, Amalfi e Gênova conservavam os laços com o mundo bizantino. O comércio estimulou o crescimento de comunas e as cidades livres da Lombardia e da Toscana, que se tornaram, cada vez mais, os centros vitais da sociedade italiana." Essas cidades tinham uma intensa vida civil doméstica e grande rivalidade política e econômica.
Assim, "foi na cidade italiana, sobretudo nas repúblicas autogovernadas como Florença, que surgiu a oportunidade para a ascensão de uma nova classe de leigos instruídos que possuíam direitos políticos e um senso de cidadania"
Surgiu a Liga Sagrada que "lançou as bases para a cultura renascentista subsequente, uma cultura que transcendeu as fronteiras políticas e se tornou comum a todo o mundo italiano de repúblicas e principados, dentre eles, a Roma papal e o reino de Nápoles."
"Durante o tempo em que tal sistema perdurou, ofereceu uma oportunidade maravilhosa para homens de talento extraordinário, cujos serviços eram avidamente cobiçados pelas cortes e cidades rivais e cuja liberdade de escolha era quase ilimitada. Foi essa oportunidade de liberdade individual, talvez não para o cidadão comum, mas para uma elite intelectual de eruditos e artistas, que se tornou a nota distintiva da cultura da Renascença."
"Na sociedade medieval, assim como no moderno Estado tecnocrático, a posição de uma pessoa dependia da função que ocupava. Fosse artesão ou escriturário, monge ou soldado, a pessoa estava estritamente vinculada à ordem da guilda, da universidade e da ordem religiosa. Na nova sociedade renascentista, no entanto, era o indivíduo que tentava afirmar a liberdade da própria personalidade para concretizar todas as possibilidades de crescimento. Dessa maneira, o artista não permanecia vinculado à guilda, mas aspirava ser um 'gênio', e o mesmo ocorria com o homem de letras, que não se satisfazia em ser professor, e com o político, um artista dos assuntos de Estado. (...)
Ao mesmo tempo, a Renascença introduziu um novo conjunto de valores ideais (ou definiu um valor ideal para as atividades humanas) que não eram necessariamente seculares, mas eram, em essência, naturais e pertenciam à esfera da livre atividade humana. Sem dúvida, o tomismo já preparara o caminho para a introdução da ética e da ideia de contemplação intelectual aristotélica como o bem supremo do homem. No tomismo, todavia, tais valores estavam em subordinação estrita aos fins religiosos e sobrenaturais, ao passo que os humanistas os viam como fins em si mesmos e lhes conferiam significado autônomo. (...)
Cresceu um ideal de cultura baseado no desenvolvimento harmonioso do corpo e da mente em todos os campos de ação. Tal 'homem universal', ele mesmo atleta, filósofo, arquiteto, poeta, artista e cientista, era um produto característico da Itália do século XV e foi esse novo tipo de homem de múltiplas qualidades superiores que tomou o lugar dos ideais medievais de nobreza, como o modelo do cavalheiro europeu e do cortesão, no período seguinte. A vida era concebida, não da maneira medieval como luta e peregrinação, mas como belas-artes, em que nenhuma oportunidade para o saber e o gozo deveria ser disperdiçada. É essencialmente o ideal aristocrático, e provocava o incremento das diferenças de classe e a perda daquela unidade de perspectiva que unia um rei medieval, como São Luís IX de França (1214-1270), com o mais humilde dos súditos." (4)
É importante saber que não foi o mero crescer do conhecimento que trouxe esta nova cultura laica e a consequente diminuição da religião. Se as novas descobertas tivessem surgido numa sociedade com a vitalidade espiritual necessária, teriam sido absorvidas pela Verdade aceite. Mas tendo surgido já nem tempo de autoridade decadente, falta de união, dúvida e superstição, foram criando um novo espírito oposto ao anterior. A ciência surgiu porque a Igreja criou as condições para isso, foram clérigos da Igreja que na sua busca por conhecimento deram a base para a ciência. No entanto, por outros fatores, a ciência acaba por se virar contra a Igreja, contra a "superstição religiosa".
"Como as viagens de descoberta, iniciadas no século XIV, expandiram o conhecimento dos homens sobre o mundo em que viviam, essa expansão do conhecimento perturbou seus hábitos fixos de pensamento sobre o universo; o mesmo aconteceu com cada nova invenção aplicada às viagens e às artes. Não há conexão racional entre a expansão do conhecimento temporal e a perda da certeza espiritual; mas a expansão do conhecimento interfere nos hábitos mentais fixos, e entre estes estão as formas que a certeza espiritual assume. A descoberta de que o que se pensava ser uma verdade histórica era, na realidade, uma lenda; que o que se pensava ser uma relíquia genuína era falso; que o que se pensava ser um documento genuíno era um romance ou uma falsificação, não invalidava a doutrina das relíquias, nem os documentos verdadeiros, nem a sã tradição; mas por uma associação de idéias o avanço de tais descobertas abalou a mente comum em sua apreensão da verdade."
É tambem de notar que os renascentistas não se viraram contra o cristianismo. Eles aceitavam a supremacia do cristianismo. No entanto, romperam um pouco com a sua cultura e criaram uma nova mais secular. Além disso, ao dar tanta ênfase no homem abriram portas a um caminho cujo fim o conhecemos hoje.
"Surgiu um dualismo entre os dois sistemas educacionais, entre os estudos literários e a filosofia, e entre o humanista e o teólogo. E tal dualismo, sem dúvida, contribuiu para a quebra da unidade da cristandade, ainda que, é claro, esteja longe de coincidir com o dualismo religioso entre a Europa católica e a protestante." (4)
Quanto ao julgamento, há posições mais radicais e menos radicais. Christopher Dawson assume uma posição mais mediana. Afirma que os renascentistas ainda eram cristãos mas trouxeram algumas coisas não tão boas, como o anticlericalismo:
"A ascensão de uma nova cultura laica na Itália foi acompanhada pelo crescimento do secularismo, e mesmo do anticlericalismo, nas cidades-estado italianas." (4) (para confirmar isto basta verificar que é desse tempo o Marsílio de Pádua, uma das primeiras figuras a falar de um “direito moderno”: separação do estado e da Igreja e afins).
Dom Marcel Lefebvre, por outro lado, assume uma posição bastante crítica e negativa. Afirma que "no esforço para recuperar as riquezas das antigas culturas pagã (...) (o renascentismo) conduziu à exaltação exagerada do homem, da natureza e das forças naturais. Exaltando a bondade e o poder da natureza, menosprezava-se e desaparecia do pensamento dos homens a necessidade da graça, a destinação da humanidade para a ordem sobrenatural, a luz trazida pela Revelação." (1)
O renascentismo, de certa forma, antecedeu um pouco a reforma protestante. Apesar de não ser uma causa, mas um sintoma (não na sua totalidade), é possível ver isso. Note-se que no norte surgiram figuras, humanistas, como Erasmo de Roterdão. Aí teve o renascentismo mais uma face de um retorno à igreja primitiva e sabedoria do evangelho, pelo que não deixou de tecer críticas à Igreja daquele tempo. O desprezo por devoções populares, desprezo pelo monaquismo, o interesse pelas Escrituras. Apesar de longe do protestantismo, abriu caminho, ou já é um antecedente do mesmo.
Erasmus, no entanto, opôs-se à reforma. Vemos aqui que eles realmente abriram certos caminhos, mas ainda eram católicos, não foi por má intenção.
O padre Romano Guardini traz análises mais profundas explicando as mudanças que ocorreram. Para este autor, a mudança fundamental é a independência individual que começa a surgir neste tempo. Não uma independência social numa espécie de liberalismo, mas antes uma independência intelectual e moral. Uma experiência do Eu individual.
Com o conceito de homem crítico surge um homem que já não quer aceitar a tradição e autoridade mas que deseja ter um “pensamento crítico”. "Constitui-se a consciência da personalidade, própria dos tempos modernos. O indivíduo passa a interessar-se por si mesmo." (2)
"Aparece o homem senhor de si próprio, que atua, arrisca e cria". (2)
A arte, neste tempo, começa a buscar inspirações na natureza, e segundo Dawson, isso também trouxe um aumento da vontade em conhecer a natureza- um desenvolvimento da ciência.
Surge a experiência do infinito cósmico e a curiosidade pelo inexplorado (não sei se surgir é o termo correto já que o desejo de conhcer já existia, mas aqui ele muda antes de carácter).
É exatamente por aí, pela evolução da ciência, que começa o padre Romano Guardini as suas análises sobre este período.
"Para o homem medieval a ciência representa exclusivamente a procura do que na autoridade das fontes é tido como verdade. Já na segunda parte do século XIV e especialmente no século XV ocorreu uma alteração. O conhecimento dirige-se diretamente para a realidade das coisas. Deseja ver com os próprios olhos, demonstrar com a sua própria inteligência, atingir uma opinião criticamente fundamentada, independente de padrões anteriores (...)
A ciência separa-se da unidade de vida e de obra até aqui determinada pela religião e constitui-se a si própria como domínio autónomo da cultura." (2)
Outras sementes, como a recusa da cosmovisão aristotélica, através de Galileu, que trouxe uma verdadeira revolução, foram plantadas aqui, preparando e formando uma nova cosmovisão:
“Somente as qualidades da natureza suscetíveis a tratamento matemático pareceram verdadeiramente reais para Galileu. Todas as qualidades sensíveis de cor, odor e som, que tanto significam para o homem, não tinham lugar no mundo descorado e silencioso da quantidade e do movimento que, para ele, era a realidade suprema.
Eram meros nomes - impressões subjetivas que se esvaíam quando o observador era subtraído. A distinção de Galileo entre qualidades primárias e secundárias, e a visão matemática da natureza na qual estava fundada, por fim, nos levaram a uma visão de universo totalmente nova. O homem perdeu a posição central de elo entre a suprema realidade espiritual e a menor realidade da matéria. Tornou-se um auxiliar pouco importante - um espectador externo do mecânico ordenamento fechado que é o mundo real. O sucessor de Galileo, René Descartes (1596-1650), tentou salvar o mundo dos valores humanos e da realidade espiritual pelo estrito dualismo filosófico da matéria extensa e do espírito pensante, sem extensão - res extensa e res cogitans. O resultado final da nova visão de mundo foi, ao contrário, considerar o mundo subjetivo da razão humana como menos real que o mundo objetivo das relações puramente quantitativas e, consequentemente, concluir que o próprio homem, tanto em corpo quanto em mente, é um subproduto de um imenso ordenamento mecânico, que a nova ciência revelara. Salvo uns poucos pensadores excepcionais, como Thomas Hobbes, somente no século XVIII foi dado o passo final, mas tal passo estava implícito, desde o princípio, na visão de mundo de Galileo."
Afirma Tommasso Campanella que "a nova ciência da natureza assinalava um ponto crítico na história da humanidade." (cita-o Dawson).
Através desta nova experiência do eu (ou o eu crítico, conhecedor) aparece a teoria racional, a crítica humanista, a ciência histórica. Na política o estado e o direito moderno, na economia o desejo de ganhar e libertar-se das determinações corporativas e a proibição do juro.
Outra consideração sobre a política é que antes estava inserida na estrutura geral da religião e da moral, submetida aos valores. De modo que "quando havia injustiça, havia também na consciência. Mas a política começa-se a tornar independente e criar as suas próprias regras, de modo que a injustiça, realizada ao seu serviço, aparece não apenas com uma consciência tranquila, mas até com um estranho sentimento de «obrigação».” (2)
"Os fundamentos práticos destes pensamentos são as intermináveis guerras entre as soberanias recentemente aparecidas, das quais provêm os estados nacionais modernos." (2) (este ponto, como veremos, vai ser muito importante para a reforma).
As novas descobertas da astrologia e as dúvidas sobre a História Sagrada começaram a tentar banir o carácter fantástico da sociedade e assim "desaparecem aqueles factores em que se apoia a representação medieval da ordem: princípio e fim, contornos e centro. Com eles desaparecem também os graus e as correspondências hierárquicas, como também os símbolos que as acentuam. Aparecem por todos os lados relações infinitas, que se, por um lado, deixam o campo livre, por outro lado recusam à existência humana o seu lugar objectivo. Recebe um espaço aberto para se movimentar, mas sem lugar definitivo." (2)
Mas a ciência tem por base a natureza. A raiz da mudança foi, portanto, a mudança do conceito de natureza.
Nestes tempos, por ação do renascimento pagão e, portanto, do velho espírito pré cristão, a natureza começa-se a considerar a natureza como o mero imediato, o conjunto de coisas sem ação do homem. Torna-se ainda um critério valorativo, o bom e saudável.
"O conceito de «natureza» exprime, pois, qualquer coisa de supremo que é impossível transcender. O que a partir dele se pode deduzir, é entendido como definitivo. O que se pode fundamentar nos seus critérios está justificado." (2)
Mas o próprio homem faz parte da natureza, o que fundamenta, naturalmente, o subjetivismo. É uma visão oposta à católica.
Na idade média, a natureza é "o conjunto das coisas na sua ordem e unidade; não como um todo autónomo, mas como obra de Deus soberano. O sujeito é para ele a unidade do ser humano individual e o suporte da sua vida espiritual, mas como criado por Deus e representante da Sua vontade.” (2)
"No fim da Idade Média, e sobretudo no Renascimento, aparece uma nova experiência-do-eu. O homem torna-se importante diante de si próprio; o eu, sobretudo o fora do vulgar, o genial, torna-se a medida do valor da vida." (2)
A subjetividade aparece como personalidade, a natureza do homem. Assim, "a grande personalidade tem que ser compreendida a partir dela própria e justificar as suas ações pela sua própria originalidade. As normas morais, aplicadas a ela, parecem-lhe relativas. A norma é descoberta no homem genial e aplicada depois a qualquer homem e o Ethos do bem e da verdade objectivos é substituído pela autenticidade e pela sinceridade. (...) Tudo o que se pode deduzir da personalidade ou do sujeito é definitivamente compreendido; todo o comportamento conforme à personalidade está justificado". (2)
A nova concepção de natureza dá as bases para o indivíduo "estar liberto das barreiras medievais, de se ter tornado senhor de si próprio numa atitude de autonomia. Exprime-se filosoficamente na teoria do sujeito corno essência de toda a intelecção; politicamente, na ideia das liberdades individuais; a sua expressão vital é a ideia de que o indivíduo traz consigo uma forma interna para a qual está apto e obrigado a desenvolver-se a partir dela própria e a realizar uma existência que pertence a ela." (2)
Ou seja, antes havia um mundo objetivo, ordenado, criado por Deus que se impunha ao indivíduo e que o indivíduo devia usar para servir a Deus. Agora a natureza torna-se o próprio Bem e sendo o homem parte da natureza, as suas disposições naturais também são parte desse bem, abrindo as portas para o relativismo. Há uma oposição na consideração do homem. De um lado o homem cristão que sabe que nasceu do pecado original e se tem de ordenar segundo Deus e do outro lado o homem que acha que a sua natureza é boa e tem de agir segundo a mesma.
Assim, não só os dois conceitos mudaram, mas a relação dos dois. O homem criador. Os homens deixam de criar como serviço à criação de Deus e ao próprio Deus e passam a procurar para si o sentido da sua criação.
"O mundo deixa de ser criação e toma-se «natureza», a obra do homem deixa de ser um serviço dado em obediência a Deus e passa a ser «criação»; o homem, até aqui adorador e servidor, torna-se criador.
Ao ver o mundo como «natureza», o homem situa o mundo em si mesmo; ao compreender-se como «personalidade», torna-se senhor da sua própria existência; na vontade de «cultura» empreende construir a existência como obra sua." (2)
Assim o mundo foi se afastando da fé, e o lugar de Deus começou a ser tomado pelo homem.
"A ciência, a política, a economia, a arte, a pedagogia, afastam-se cada vez mais conscientemente dos vínculos da Fé e também duma ética que impõe obrigações, e criam a sua autonomia a partir da sua essência. Enquanto, cada um destes domínios particulares se fundamentam em si próprios, estão em princípio numa relação comum que se constrói a partir deles e que ao mesmo tempo os suporta. É a «cultura» , enquanto conjunto da obra do homem independente de Deus e da sua Revelação." (2)
Assim, "com o desaparecimento da Idade Média aparece uma ordem de valores puramente profana". A cultura vai se tornando hostil ao cristianismo e à Igreja aos poucos. Ao início ainda de forma pequena e clandestina, ao longo do tempo vai crescendo "a luta entre o pensamento moderno e o antigo". (2)
E aos poucos, "o homem deixa de estar debaixo do olhar de Deus, que envolve o mundo, mas é autónomo, faz o que quer e vai onde entende - também já não é o centro da criação, mas uma parte qualquer do mundo.
Por um lado, eleva-se a concepção do homem nos tempos modernos à custa de Deus e até contra Deus; por outro lado, há uma vontade destrutiva de fazer dele um pedaço de natureza que não se distingue fundamentalmente da planta e do animal." (2)
Conclusão:
Analisamos em duas partes o que na história ocorreu num só momento. As linhas dos acontecimentos entrelaçam-se na história. Por um lado a decadência da autoridade cristã e da unidade cristã, ou seja, de toda a cultura cristã, e por outro o nascimento de uma nova, mais profana e anticlerical. O espírito de revolta pairava em toda a cristandade, o espírito nacional superava o espírito supranacional cristão. O subjetivismo renascentista junta-se à recusa dos absolutos pelo nominalismo. O espírito mundano renascentista (que não dominava a sociedade toda mas certas classes) anseia “libertar-se” do velho mundo católico ao mesmo tempo que muitos se anseiam por libertar da autoridade da Igreja. O espírito inovador renascentista junta-se a um espírito de revolta protestante. A sociedade e o ambiente já não é o mesmo que se viveu nos tempos de Santo Tomás Aquino, São Boaventura, Luís IX e as cruzadas. A reforma (ou revolta, como se deveria chamar) só vem dar o ponto final àquilo que estava para acontecer.
Nota: Usamos, neste artigo, frequentemente o termo Idade Média. O termo Idade Média foi um termo usado por iluministas que acreditavam que existia a época clássica, de grande conhecimento e ciência, a época "no meio" (Idade Média), a época das trevas, de superstições religiosas, e a nossa época, de luzes, conhecimento e prosperidade outra vez. Assim, é um termo de desdém pela cristandade. No entanto, por uma questão prática usamos o termo, apesar de preferirmos o termo "cristandade", por motivos óbvios.
Miguel
Ad majorem Dei gloriam
Fontes:
(1) Dom Marcel Lefebvre, Do Liberalismo à Apostasia;
(2) O Fim do Mundo Moderno, Padre Romano Guardini;
(3) A Crise da Nossa Civilização, Hilaire Belloc;
(4) A Divisão da Cristandade, Christopher Dawson.

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