História da decadência ocidental (Parte 2: da reforma protestante até à nossa época)

 

Introdução

Muitas vezes, ao estudar a história, os historiadores negligenciam o papel da religião, já que nos tempos modernos a "religião foi alijada da vida social e tratada, cada vez mais, como um assunto privado que só dizia respeito à consciência individual" (1). No entanto, esquecem-se que "no passado a religião ocupara o centro do palco da história mundial, de modo que um monge e místico como São Bernardo de Claraval (1090-1153) movimentara exércitos e tornara-se conselheiro de reis." (1)

Ora, especialmente nesta época em que a religião era realmente o centro da sociedade, são as mudanças religiosas que trazem grandes mudanças na sociedade. Isto para concluir que não há como compreender a modernidade sem entender a reforma protestante. Foi esta, na verdade, a causa da maioria dos males que hoje nos afligem (apesar de ser uma consequência inevitável de males que já pairavam na sociedade daquele tempo, como vimos).

No entanto, é exatamente a partir daí que nos propomos hoje a explorar a decadência do ocidente. 


Reforma

Antes de estudar as consequências da reforma, iremos estudar como ela se deu, descrita por Dawson.

Dawson é da opinião que a causa imediata da reforma foi o confronto da Igreja e do estado:

"Surgiu (a reforma) porque a existência de uma sociedade internacional unificada sob autoridade e liderança da Igreja era inconsistente com a nova ordem temporal, como expressa pelos Estados e monarquias nacionais. O conflito inevitável entre Igreja e Estado só poderia levar à desordem." (1)

Além do já explicado no artigo anterior, agora analisaremos mais concretamente o caso Alemão onde a situação explodiu primeiro. Na Alemanha, muitos bispos ocupavam cargos públicos e negligenciavam os espirituais, além de serem bastante ricos. Também muitos mosteiros se tornaram quase latifúndios donde os abades beneficiavam. Apesar de a Igreja ter uma resposta para estes problemas no direito canónico, o papado, já bastante secularizado pela renascença, não agiu nem fez nenhuma reforma até ser tarde demais. 

Assim, principalmente na Alemanha, pois não havia uma unidade nacional como na França, havia um certo ódio dos príncipes contra o clero e desejavam estes usurpar as suas propriedades e cargos. Além disso, vivia-se uma situação revolucionária no Império mas não havia força de mudança no Império, e a Igreja, era, em parte, aos olhos do povo, a culpada, por ser um obstáculo ao estado nacional. 

Mas para os príncipes, o papado era o culpado disso, e havia um determinado ressentimento geral contra o papado italiano. 

"Esse ressentimento nacional contra o papado italiano e o desejo dos príncipes de resolver os seus problemas econômicos e políticos à custa da Igreja foram os motivos materiais e as forças que realizaram a Reforma Protestante não somente na Alemanha, local onde agiu com mais vigor, mas por todo o Norte da Europa, primeiro na Suécia, na Dinamarca e nas terras Bálcãs, e mais tarde, na Inglaterra e na Escócia. A reforma que efetuaram, contudo, não era uma reforma da Igreja, mas, ao contrário, era uma reforma do estado medieval à custa da Igreja. A reforma religiosa teve origens independentes e os dois movimentos foram reconciliados pelas forças inelutáveis da história em dois planos diferentes." (1)

Dawson, a fim de ilustrar isto, dá o exemplo de Ulrich von Hutten, "um revolucionário que viu o Papa e a Igreja como alvos óbvios de ataque. Seus motivos, contudo, eram políticos e nacionalistas, não religiosos", acabando por o descrever como "um sintoma da situação revolucionária da época." (1)

Lutero surge neste contexto e neste espírito. O seu espírito é fundamentalmente uma recusa da autoridade e uma afirmação do individualismo. A revolta do indivíduo contra a ordem.

"A força de Lutero sempre repousa no subjetivismo - afirmação dos direitos de consciência, a certeza da fé individual e o direito de cada homem interpretar a Escritura por si mesmo" (1)

Da sua mente escrupulosa surge a ideia do “peca e peca com força mas crê com mais força ainda". O homem não pode fazer nada de bom. Só a fé o salva. 

Mas assim como sempre, o individualismo que se revolta contra autoridade também vem com ideias igualitárias:

"Não há verdadeira distinção entre as ordens temporal e espiritual. Padres e bispos são simplesmente funcionários da sociedade cristã e não possuem poder inerente de jurisdição. Todo o poder pertence ao magistrado que é tão funcionário do corpo dos cristãos quanto o padre. E se a Igreja requer reforma, é para o magistrado usar o poder a serviço de toda a sociedade cristã, de modo que a Palavra de Deus possa triunfar. Não cabe somente ao clérigo decidir o que deve ser feito." (1)

As ideias revolucionárias espalharam-se rapidamente. Tiveram o apoio da imprensa que na época começava a ser importante na Alemanha, e muitos bispos, não vendo a gravidade da situação, não se opuseram. 

A Alemanha entrou num estado de anarquia. 

"Os cavaleiros insurgiram-se contra os príncipes eclesiásticos em 1522, os camponeses contra os nobres em 1524, os turcos conquistaram a Hungria em 1526 e ameaçavam a própria Alemanha, até que retrocederam quando chegaram aos portões de Viena em 1529, (...) as forças do protestantismo tornaram-se a cada ano mais fortes e mais autoconscientes, especialmente nas cidades livres do Império e nas cidades hanseáticas do Mar Báltico. Ao longo desses anos quase todos aceitaram a nova doutrina, aboliram a Missa, secularizaram monastérios e estabeleceram uma nova política eclesiástica." (1)

Rapidamente obtiveram os protestantes o seu primeiro estado:

"O Grão-Mestre dos Cavaleiros Teutônicos na Prússia, Albert da Prússia (1490-1568), secularizou as propriedades da Ordem e se tornou duque hereditário da Prússia, criando, assim, o primeiro Estado protestante." (1)

Seguiram-se tempos de completa anarquia, de revoltas e assaltos continuos a igrejas e mosteiros. 

Lutero, no entanto, afastou-se das revoluções e aproximou-se dos príncipes. 

"Foi Philipp von Hessen o real arquiteto das sucessivas ligas, sobretudo da Liga do Schmalkalden, pela qual os protestantes se tornaram um fator político, primeiro como partido de oposição nas Dietas alemãs, e depois como poder político independente capaz de negociar tratados com governos estrangeiros e declarar guerra por conta própria." (1)

Assim, tal como em todas as revoluções, houve uma elite que lucrou com isso: 

"O avanço da Reforma foi naturalmente favorável ao poder dos príncipes, uma vez que, como já havia observado, a eliminação do estamento eclesiástico e a secularização da riqueza da Igreja ajudaram os príncipes a aumentar e consolidar os próprios governos; ao passo que a instituição de uma igreja territorial luterana sob supervisão e controle do príncipe envolvia a reconstrução radical da sociedade para o benefício do príncipe, de sorte que este adquiriu uma autoridade religiosa patriarcal que era quase absoluta. Em comparação, o poder do imperador tornou-se cada vez mais fraco e mais remoto. Até então fora capaz de confiar no apoio das cidades contra os príncipes, mas o triunfo da Reforma em todas as cidades imperiais as levou para o campo dos príncipes, de modo que formaram um elemento importante das forças protestantes." (1)

Mas essa elite não cresceu só na Alemanha. Em todo o sítio para onde a reforma se espalhou, cresceu uma oligarquia. Na Suíça, por exemplo, também sob Zuínglio, se formou uma união de cantões protestantes que tinham recusado a autoridade do Bispo. Derrotando por fim os católicos, triunfaram. Zuinglio começou a comunicar-se com Philip von Hessen.

Assim, os protestantes foram se unindo e espalhando, começando a fazer guerras. 

Diz Georg Witzel (1501-1573): "O sucesso deste homem destemido [Philipp] fez mais pela causa protestante que milhares de livros do doutor Lutero" (1)

A Alemanha, no entanto, foi se afundando cada vez mais num estado de divisão.

Em França e Inglaterra o senso nacional e o estado nacional (na altura monarquia nacional) já existia. Pelo que, "nessas terras, a Reforma se tornou uma oportunidade para o governo afirmar ainda mais sua força, ao identificar-se com a religião nacional, criando, assim, uma igreja nacional. Na Inglaterra, o governo identificou-se com a Reforma e a igreja nacional era anglicana. Na França, a religião da nação permaneceu católica e a igreja, galicana. Em ambos os casos, fosse a igreja anglicana ou galicana, o poder real era o poder supremo, e era o Estado, e não a Igreja, que decidia qual seria a religião dos súditos." (1)

"A questão decisiva não era, como no Continente, o ponto da ortodoxia e da heresia que poderia ser resolvido por uma profissão de fé, mas a questão da supremacia real e a da fidelidade que poderiam ser resolvidas por um juramento." (1)

Era, no fim, a velha disputa entre o Papa e o Rei. 

Mas aqui, o espírito que entrou, ao contrário da Alemanha, não foi o de Lutero, mas o de Calvino. Já tivemos a oportunidade de estudar as diferenças, mas em questões fundamentais podemos resumir dizendo que Lutero negava, protestava, contestava, Calvino afirmava, formava. Calvino criou uma igreja organizada, com uma doutrina. Além disso, "o espírito calvinista era essencialmente militante" (1)

"Mesmo onde o número de membros era relativamente pequeno, era mais bem organizada que a maioria católica e era mobilizada com muito mais facilidade. Assim, os santos se tornaram soldados e a disciplina genebrina produziu um novo tipo de protestantismo militante, que deverá ser visto nos exércitos de huguenotes e puritanos." (1)

"O próprio sucesso dos exércitos aumentou a impopularidade, pois o avanço das tropas foi marcado por um rastro de igrejas destruídas, monastérios incendiados, e a iconoclastia, característica tão marcante do calvinismo em todos os locais, colaborou imensamente para acender as paixões na maioria católica, que poderia ter ficado neutra, caso as guerras tivessem sido um mero conflito entre os Bourbon e os Guise." (1)

Nos países baixos um "movimento religioso (calvinista) assumiu um caráter revolucionário e tomou a forma de um ataque sistemático às igrejas. O movimento começou em 1 de agosto entre os trabalhadores da região de Armentieres e Hondschopt e, dentro de poucos dias, todas as grandes igrejas de Flandres, exceto as de Brugres foram destruídas." (1)

Neste ponto já não há minimamente aquela unidade medieval. Temos de um lado a "aliança da Espanha, do Império Austro-húngaro e dos católicos franceses a serviço da Contrarreforma" e do outro a "Holanda, Inglaterra e protestantes franceses que vieram a controlar os caminhos marítimos, a tábua de salvação do Império Espanhol." (1)

Não podemos subestimar a Holanda, descrita como "novo Estado protestante (...) criado em uma única geração e (que) quase imediatamente, se tornou a maior potência naval comercial da Europa e um dos principais centros da nova cultura protestante." (1)

"A cristandade estava dividida não apenas pela guerra de palavras e o conflito de opiniões, mas por rios de sangue, incontáveis execuções e exílios, e o espírito de vingança que habitou nas atrocidades do passado." (1)

Não só por fatores históricos, ódios e rivalidades, mas por duas novas civilizações e culturas.

Na economia:

"O ascetismo moral do ethos puritano estava em harmonia com o utilitarismo estrito da economia colonial, pois ao cortar tudo o que era supérfluo, ao restringir as oportunidades de prazer e manifestação pública, tendia a concentrar as energias dos homens em tarefas necessárias e econômicas, sobre as quais repousava o bem-estar da comunidade. Pode parecer paradoxal que a religião que depreciava as boas obras e negava os méritos humanos tenha produzido uma raça de incansáveis e sagazes comerciantes, mas esse é o paradoxo do calvinismo e onde quer que os ideais e a disciplina calvinistas tenham triunfado, seja entre os huguenotes franceses, os presbiterianos escoceses ou os puritanos ingleses e norte-americanos, encontramos semelhante espírito de vigor moral e atividade social que produziram, em todos os lugares, resultados importantes nos campos político e econômico." (1)

No papel da religião na cultura e na religiosidade popular:

"Entrementes, na Europa protestante, em especial nos países calvinistas, a Reforma Protestante varrera para longe os tesouros artísticos acumulados na Idade Média, o simbolismo religioso e destruíra o caráter litúrgico da cultura popular - o ciclo de festas e jejuns anuais e o teatro religioso. Não que a Reforma Protestante tivesse deliberadamente a intenção de secularizar a cultura; pelo contrário, desejava elevar o padrão do conhecimento e prática religiosos. Fizeram, no entanto, por meios totalmente intelectuais e racionais. A pregação assumiu o lugar da liturgia. A leitura da Bíblia, o lugar das imagens e simbolismo religiosos; o caráter comunal dos festivais medievais e as peregrinações foram substituídos por um tipo individualista de piedade que era, contudo, muito diferente do praticado pelo eremita ou asceta medieval, uma vez que inculcava o estrito cumprimento dos deveres sociais e econômicos." (1)

No fim, duas civilizações muito diferentes:

"O calvinismo não encontrou sua verdadeira esfera de atividade nas cortes e entre os nobres, mas entre as novas classes comerciantes e industriais que estavam começando a surgir nas cidades da Holanda e da Inglaterra. Havia uma afinidade natural entre o espírito puritano e o espírito da burguesia. O ascetismo estrito do ideal puritano, que reprime severamente a tendência natural do homem para o ócio e o prazer, condenando toda a demonstração exterior como vaidade mundana, inculcou a diligência e a frugalidade como os primeiros deveres dos cristãos, dando uma sanção sobrenatural às virtudes que eram caras ao coração da burguesia. 

Dessa maneira, o calvinismo deu às classes médias um suporte espiritual e moral que lhes permitiu afirmar a independência social e a construir uma nova ordem com base no esforço individual e na iniciativa, em vez de confiar na responsabilidade corporativa e na sanção social hereditária. Já no século XVII podemos traçar a emergência de um novo tipo- o comerciante trabalhador, honesto e respeitável que estava destinado a substituir o nobre, o cortesão e o padre como liderança na sociedade.

Assim, o contraste entre a amadurecida cultura barroca da Europa Central e do Sul e a nascente cultura burguesa da sociedade calvinista era um contraste imediato entre ideais espirituais e tendências sociais opostas. A cultura barroca da Espanha e da Áustria era a de uma sociedade de príncipes e monastérios - mesmo que de palácios monásticos como El Escorial - e dava, comparativamente, pouco espaço para o mercador e o artífice. Era uma cultura antieconômica que gastava seu capital de maneira pródiga, temerária e esplêndida, tanto para a glória de Deus como para o ornamento da vida humana. 

A cultura puritana da Holanda e da Inglaterra, por outro lado, era a cultura de uma sociedade de comerciantes, soldados de cavalaria e artesãos, cujas vidas estavam centradas nas casas de reunião, nas firmas de contabilidade, na fazenda e na oficina. Não tinham tempo nem dinheiro para gastar em criações artísticas ou em espetáculos externos. Todas as forças estavam concentradas na tarefa de salvar as almas e de ganhar o sustento, e computavam cada momento do tempo e cada centavo dos gastos como algo que deveriam prestar contas exatas ao grande capataz, no dia do Juízo Final. Assim, enquanto a cultura barroca gastava a riqueza em Igrejas para peregrinação, palácios e monastérios, os puritanos estavam lançando os fundamentos sobre os quais a ordem capitalista do futuro seria construída. 

O ideal da cultura burguesa é manter um padrão médio alto. Suas máximas são: 'A honestidade é a melhor política', 'Fazei o que quereis que vos façam', 'Deus ajuda a quem se ajuda'. Mas o espírito barroco vive no e para o momento triunfante de êxtase criativo. É tudo ou nada. Suas máximas são: 'Tudo por amor e não teremos perdido a vida em vão'" (1)

Assim, o primeiro efeito da reforma foi a divisão da sociedade. A divisão não gerou só divisão religiosa mas de culturas, de nações, uniões, etc.

"Quando a época das guerras religiosas terminou, a Europa ainda estava dividida (e os Estados Unidos também) pela diferença de valores morais e antipatias psicológicas. Tais diferenças são mais difíceis de superar que as teológicas, porque penetram profundamente na mentalidade inconsciente e se tornam parte da personalidade e do caráter nacional." (1)

"Que contraste poderia ser mais nítido do que a cultura popular da Europa católica - com peregrinações, festivais e espetáculos teatrais sacros, todos centrados nas grandes igrejas barrocas, os palácios coloridos dos santos -, e a austera vida religiosa do laborioso artesão e do comerciante protestantes, cuja única expressão exterior era a frequência semanal a um local de reunião, sem adornos, para ouvir as longas pregações dos clérigos puritanos e cantar longos salmos metrificados, porém muito distantes das versões poéticas? 

Essa diferença na forma da vida religiosa encontrou expressão correspondente na diferença de tipos psicológicos e personalidades espirituais." (1)


Consequências:

Terminada a análise de como foi feita a reforma, o seu carácter e as suas consequências imediatas (a saber, a desunião), iremos agora aprofundar o estudo das consequências da reforma.

As mudanças após a reforma são rápidas. 100 anos após a reforma já se vê todo o mal que daí veio claramente. As sementes lançadas pela revolução religiosa já no fim do século XVIII começam a germinar. "Poucas gerações percorrem a distância que vai do cristianismo ao racionalismo, do Evangelho à deusa Razão." (2)

O livre exame individual no campo religioso destruiu a unidade doutrinária e moral do cristianismo e colocou-o à disposição de todas as paixões e interesses. Multiplicaram-se as seitas protestantes e quebraram-se os limites da racionalidade. Se antes a autoridade e a fé orientavam o pensamento, sem isso viu a inteligência o caminho aberto para todos os erros (assim, passado um século surgiram todos os “deístas, filósofos e iluministas”, como veremos).

Tentaram ainda os protestantes criar símbolos de fé para manter o essencial e alguma unidade, mas o protestantismo, no seu processo de revolta e protesto cada vez mais radical, revoltando-se sempre contra os anteriores, foi destruindo cada vez mais o evangelho. 

Também lançou as bases do sentimentalismo religioso que "relegava em plano secundário as verdades de fé em benefício da experiência religiosa" (2). Assim, não só a razão era justificação para os erros, mas quando estava cansada, também o sentimento servia para justificar um caminho no meio do deserto que é a falta de autoridade em matérias do intelecto.

Os extremos opõe-se e explica Dom Marcel como o protestantismo levou ao naturalismo: ao negar toda a ação sobrenatural da graça e afirmar que só a fé salva, "deixa finalmente o homem, apesar de haver sido redimido, sujeito somente à força de suas aptidões naturais; fatalmente se afunda no naturalismo." (3)

Assim, o homem, não desejando as graças e tesouros do Céu, afundado num fatalismo do pecado e vício, desejou as coisas da terra. 

Mesmo para o crente, como mostra o padre Romano Guardini, surgiu a ideia, tão comum hoje, de que "as coisas religiosas são um domínio fechado em si e as coisas do mundo outro, e que cada domínio deve adaptar a estrutura que melhor se quadra com a sua própria natureza, deixando ao indivíduo a liberdade de viver nestes dois domínios segundo os seus desejos" (6), fazendo a vida religiosa perder "as suas relações com a vida concreta, ficando cada vez mais pobre de conteudo humano, limitando-se exclusivamente à prática e à doutrina «puramente religiosas» e deixa de ter outro significado que não seja consagrar religiosamente alguns momentos importantes da existência: o nascimento, o casamento, a morte." (6)

Aquele "espírito sobrenatural, onde reina a primazia do espiritual" (3), foi banido da sociedade. 

"Este naturalismo aplica-se à ordem civil e social: ficando a Graça reduzida a um sentimento de fé-confiança, a Redenção será somente uma religiosidade individual e particular, sem influência na vida pública." (3)

Além disso, a divisão de culturas de que já falamos e os seus confrontos forçou as pessoas a procurar uma solução: o secularismo.

"A progressiva saída forçada do cristianismo da cultura é o preço que a cristandade tem de pagar pela perda da unidade. (...) Cisma gera cisma, até que cada antagonismo social esteja refletido em alguma forma de nova divisão religiosa e que não seja concebível nenhum tipo de cultura cristã." (1)

Antes, mesmo dentro das divisões da cristandade havia uma aliança fundamentada na religião. "Quando tal aliança foi rompida, a vitalidade da cultura medieval entrou em declínio." (1)

Entre guerras e divisões, "foi preparado o fundamento para a secularização da cultura europeia. Os secularistas convictos eram uma minoria da população da Europa, mas não precisavam ser fortes, já que os cristãos fizeram todo o trabalho." (1)

Afirma Dawson que "a causa imediata da secularização da cultura europeia foi a frustração e o desânimo resultantes de um século de guerras religiosas, e, principalmente, o final inconclusivo." (1)

Assim veio a proposta de uma nova cultura: "um novo tipo de cultura estava surgindo e consistia numa revolta consciente contra o cristianismo, visando a criação de uma nova base racional e filosófica para uma cultura ocidental unificada." (1)

Assim, não passou, como dissemos, um seculo para estas consequencias do protestantismo darem os seus frutos. Surgiu a nova classe de intelectuais por todo o norte da Europa.


Os filósofos do século XVI, XVII e XVIII

A primeira questão, obviamente, é: quem são estes homens e de onde vieram?

Ajuda-nos Dawson:

Como consequência do crescimento da burguesia houve o "crescimento dos intelectuais leigos, a criação de uma classe de jornalistas e de homens de letras profissionais na França, Inglaterra e Países Baixos. (...) Na França, em especial, essa classe tendia a favorecer o livre pensar e a lassidão moral. Eram os 'libertinos', precursores dos "philosophes" do século seguinte" (1)

"A classe mercantil na Holanda e na Inglaterra e os advogados e funcionários públicos da França aos poucos tomaram o lugar da nobreza como os verdadeiros líderes da cultura." (1)

"Tal classe está entre as mais fortes influências que levaram à secularização da cultura", estava "disposta a criticar a autoridade e tendia, naturalmente, a adotar um tipo sectário de religião - puritanos e não conformistas na Inglaterra, huguenotes na França." (1)

Assim, por serem protestantes, "viam a religião como matéria privada que dizia respeito somente à consciência do indivíduo, ao passo que a vida pública era, essencialmente, a vida comercial; uma esfera em que o lucro é a motivação suprema e a moral e deveres religiosos do homem são mais bem desempenhados pelo cumprimento pontual e industrioso das atividades profissionais." (1)

Mas quem eram exatamente? O racionalismo do século XVIII tem três caras, a saber: o deísmo, o filosofismo e o iluminismo. 


Deísmo: em face das discordâncias entre os protestantes, os ingleses procuram a "religião natural", filha da pura razão humana, longe de qualquer autoridade ou tradição, fundamento da vida religiosa dos novos tempos. Alguns chegaram ao panteísmo: Deus é todo o universo material. "Tudo se dilui num racionalismo corrosivo de toda a ordem sobrenatural cristã" (2)

Qual foi a influência do deísmo em Inglaterra?

Apesar de ele ter acabado por ser vencido pela ortodoxia da igreja anglicana, "não há dúvidas que esse período assistiu uma secularização geral da vida política e social da Inglaterra. A revolução de 1688 foi seguida pelo triunfo das classes médias e a entronização da propriedade privada, com a figura do proprietário como o fundamento da nova ordem social. Após a morte da rainha Anne Stuart (1665-1714) da Grã-Bretanha e da derrocada do establishment da dinastia dos Hanover, a coroa perdeu a aura de direito divino e se tornou um órgão do novo regime secular. Até o reavivamento religioso do movimento wesleyano ajudou a aumentar a secularização da vida pública, ao dar ênfase na importância da conversão individual e no caráter privado da religião." (Desta contribuição protestante para a secularização referida na parte final já nos falava Dom Marcel Lefebvre). 


Filosofismo: Este deísmo "viajou" até França, devido à "influência dos refugiados protestantes que deixaram a França após a revogação do Édito de Nantes (Édito que lhes dava a liberdade), em 1685, e foram para a Holanda, Inglaterra e Prússia e, certamente, para todos os países protestantes. Esses refugiados representavam os elementos mais ativos e independentes na burguesia francesa e agiram como uma via de mão dupla em termos de influência cultural entre a França e o restante da Europa, em especial, a Inglaterra. Por meio século, foram os principais jornalistas e tradutores que tornaram a cultura inglesa conhecida na França, particularmente o pensamento de John Locke (1632-1704), de Sir Isaac Newton e de Anthony Ashley Cooper (1671-1713), o terceiro conde de Shaftesbury. Os refugiados tinham a mentalidade totalmente francesa, mas eram inimigos jurados de Luís XIV e do catolicismo francês, de modo que o resultado da revogação foi criar um movimento subterrâneo mais potente e mais bem organizado contra o catolicismo. A sede dessa campanha era a Holanda e o órgão principal, a imprensa livre, editada por estudiosos brilhantes como Bayle e Le Clerc, era o que chegava ao público europeu." (1)

Além disso, a revogação do edito fez com que surgissem "protestantes escondidos" sob as aparências de católicos. Uma burguesia com ódio ao catolicismo e à monarquia. Assim, "apesar dessa minoria desafeiçoada ser incapaz de professar ou defender sua antiga religião por medo de represálias, nada a impedia de criticar o catolicismo em bases puramente racionais e, assim, combinar a influência desse grupo com a dos racionalistas seculares, criando uma atmosfera de crítica, ceticismo e hostilidade à autoridade, que permeou a cultura da França ao longo do século XVIII." (1)

Assim, diz Dawson que Descartes foi um verdadeiro gênio revolucionário que varreu para longe os princípios da autoridade e da tradição ao fundamentar tudo numa procura racional cética e individual. 

"O Locke inglês foi prontamente assimilado pelo protestantismo inglês e se tornou uma ponte entre a ciência e a religião, mas o Locke francês (Descartes) foi transformado no sustentáculo-padrão de um partido muito mais revolucionário e destrutivo do que foram os deístas na Inglaterra. Os filósofos franceses não eram apenas anticlericais, porém, abertamente anticristãos." (1)

É com Descartes que aparece também a "ruptura entre o direito divino e o direito humano natural". (3)

Assim, o "deísmo francês", sob o nome de filosofismo, tornou-se um verdadeiro ódio anti-cristão que se personifica na pessoa de Voltaire. 

"Raras vezes na história a autonomia do pensamento francês esteve sob uma tutela tão imperiosa da Inglaterra. (...) As obras dos escritores estrangeiros aparecem quase ao mesmo tempo em traduções ou adaptações francesas. A influência tradicional de Descartes e Pascal, espiritualistas e cristãos, eclipsa-se em proveito do empirismo britânico que prepara o caminho à explosão materialista do fim do século." (2)

Neste tempo, ainda sem negar a existência de Deus, viram-se os franceses contra o cristianismo. 

"Depreciar a antiguidade cristã, envolver no desprezo 'os tempos tenebrosos' da idade média, exaltar a época contemporânea como a idade das luzes definitivas: eis o critério que norteia os julgamentos da história. Na época moderna, lê-se no Discurso preliminar de D'Alembert, "começou-se pela erudição (séc. XVI), continuou-se pelas boas-letras (séc XVII), terminou-se pela filosofia (séc. XVIII)". Decididamente o séc. XVIII marca o apogeu da sabedoria humana! Os lugares comuns sobre a bondade natural do homem, o progresso indefinido, a soberania absoluta da razão que não conhece mistérios voltam com a frequência dos estribilhos. No governo da vida individual prevalece uma ética inspirada num utilitarismo sem horizontes; no regime das sociedades equilibra-se a moral no conflito das paixões egoísta. Em matéria religiosa, a posição média é a do deismo d'Além-Mancha: solapar as bases do cristianismo e substituí-lo por uma religião natural de modestas exigências em pontos de doutrina e de costumes. Exegese, história, literatura, de tudo se devia fazer flecha para atingir o alvo. O inglês contentava-se com dissolver o Evangelho em puras verdades racionais; o francês dava um passo adiante, pretendia prova-lo contrário à razão. As velhas 'superstições' eram incompatíveis com a grandeza do homem." (2)

"Do sarcasmo à ironia todos os estilos são bons; do desprezo à cólera todos os sentimentos lhe fervem na alma; da história à exegese todos os conhecimentos lhe oferecem ensejo para dar expansão a um ódio profundo que, dir-se-ia, acabou por consubstanciar-se com a sua própria natureza. Jesus não passava de um entusiasta de boa fé, ao qual, três séculos mais tarde foram decretadas as honras da divindade; pior: 'un homme de rien, méprisable, qui n'avait ni talent, ni science, ni adresse' ('um homem de nada, desprezível, que não tinha talento, nem conhecimento, nem habilidade'). Os seus discípulos, uma legião de falsários. Os evangelhos, documentos apócrifos, contraditórios e sem valor. Os dogmas cristãos, um feixe de absurdos, geradores de ateus. A própria moral evangélica nada tem de novo e não se avantaja à dos filósofos pagãos. O cristianismo, numa palavra, é a grande impostura, a grande superstição, o grande inimigo que importa destruir a todo custo e por todos os meios." (2)

Aí também surgiu o movimento das enciclopédias, que procurava levar aos intelectuais comuns o (des)conhecimento, que melhor se chamaria de publicidade anticristãs, pregados por estes filósofos.

E junto às enciclopédias nasceu a maçonaria, cujas influências anticristãs são de um tamanho enorme e teremos oportunidade de estudar noutra altura.

Além disso, a abolição dos jesuítas contribuiu para que não houvesse uma resposta a estes anticristãos. Dawson diz que foi dos fatores que mais contribuiu para a secularização da cultura. 

No final, Locke, Rousseau e Voltaire deram o último toque na secularização do direito natural ao falarem do estado de natureza quase animal e violento antes de os homens aceitarem resignar os seus direitos em prol de uma autoridade por eles formada, aceite e submissa. "A lei natural fica reduzida a um conjunto de sentimentos que o homem tem de si mesmo e que são compartilhados pela maior parte dos outros homens (....) Tal conclusão é o fruto de uma razão desorientada, que na ânsia de emancipação em relação a Deus e à sua revelação cortou as ligações com os princípios da ordem natural, reforçados pela revelação divina sobrenatural e confirmados pelo magistério da Igreja." (3)

Tudo isso em França culminou, ou até poderíamos dizer que, a passagem de tudo isso do campo intelectual para o campo político, foi a conhecida revolução (anti) Francesa, que tirou da França a obediência a Cristo que esses intelectuais tinham pregado:

"Durante o período de uma geração - ao longo do último terço do século XVIII - a Religião da Natureza (veja-se a negativa influência do renascentismo aqui) se tornou uma verdadeira religião e não uma simples fantasia ideológica, uma fé em que os homens acreditavam com toda a alma e pela qual estavam dispostos a morrer. 

Apesar da imprecisão de tal crença - da fé no progresso, da esperança na vinda de uma era de perfeição social e felicidade universal, da fé otimista na ordem providencial da natureza, da crença na democracia e na doutrina da liberdade política, igualdade social e fraternidade espiritual - e seria um erro subestimar o caráter religioso, visto que continua a ser o credo dominante de grande parte da civilização ocidental até o início do século XX. De fato, a atual crise espiritual de nossa cultura não se deve tanto a perda da fé tradicional no cristianismo, que já ocorrera na época da Revolução Francesa, mas também ao colapso dessa nova religião que ocorreu no século XX, especialmente, após duas guerras mundiais. 

Desse modo, na França e nos países diretamente influenciados pela Revolução, talvez seja mais exato falar de descristianização da cultura do que de secularização, ao passo que na Inglaterra o desenvolvimento seguiu curso inverso. No entanto, como em todos os períodos de revolta religiosa, mais pessoas foram afastadas da antiga religião que convertidas para a nova. Uma parcela muito grande da população foi deixada num estado de confusão moral, aceitando tacitamente a destruição da antiga ordem sem manifestar adesão profunda a nenhum dos ideais religiosos da nova ordem. A Revolução Francesa criou uma sociedade burguesa e uma cultura secular e, ainda assim, a média dos burgueses franceses continuaram a ser católicos indiferentes, e suas mulheres, piedosas e praticantes. Foi a classe dos intelectuais e dos trabalhadores urbanos que permaneceram fiéis à tradição revolucionária. Dessas duas classes se originou o socialismo do século XIX, e tais formas 'utópicas' primitivas ainda se inspiravam nos mesmos ideais de religião da natureza e de humanidade que influenciaram a Revolução Francesa." (1)


Iluminismo: foi a edição alemã do movimento francês e inglês. O mesmo movimento sob as aparências nacionais de três. 

A incredulidade na Alemanha teve o patrocínio real de Frederico II que dizia que "Na natureza só é possível um Deus e um Voltaire". (2)

Na fachada dos livros de Wolf, um iluminista desse tempo, vê-se um sol a dissipar as nuvens do passado. "O século XVIII, numa apreciação tão enganosa do próprio valor, apresenta-se como uma nova era - era de luzes e de glórias para a humanidade." (2) Foi lá que o racionalismo, bebendo do deísmo e filosofismo, foi principalmente caracterizado pela negação de todo o sobrenatural, o mais puro naturalismo anti-cristão. Parar muitos tornou-se uma luta aberta, inclusive com blasfémias, contra o cristianismo. Surgiram as construções ideológicas que os alemães tanto gostam. Surgiram as "explicações naturais" do Evangelho, as análises históricas e psicológicas dos livros Sagrados. Todas com muitos erros e enganos, naturalmente. É curioso notar também a tentativa de muitos de explicar fenómenos sobrenaturais da Bíblia com ocultismo e esoterismo (os iluminados que negavam as "superstições" cristãs enfiavam-se em todo o tipo de superstições mais baratas). 

"Todos estes esforços, nesta longa frente de combate ao cristianismo, convergem para um resultado idêntico: eliminar o sobrenatural do Evangelho; medir a obra de Cristo pela craveira dos outros acontecimentos humanos, reduzindo-a ao denominador comum das mitologias pagãs. Da religião não se pretende conservar senão o que entra no curso normal da natureza e é suscetível de uma demonstração racional de ordem filosófica. O homem não pretende obedecer senão à própria razão e esta é, arbitrariamente, enclausurada nos limites de um naturalismo sem horizontes. 'A religião nos limites da simples razão' (Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft, 1793) é o título de uma das últimas obras de Kant; é outrossim a síntese das aspirações do século XVIII e o alvo de suas lutas.'"

E como os opostos se cruzam sempre, alguns, após tanto racionalismo circular, tentaram substituir a religião por "uma concepção antidogmática e sentimentalista da religião". 

Surge também a figura de Kant. Não nos importa fazer um tratado de discussão filosófica, mas tratar da destruição do ocidente, pelo que não explicaremos a filosofia de Kant, mas só as suas conclusões e as consequências do seu pensamento para a destruição do ocidente cristão. 

Kant traz a "adaptação dos objetos ao sujeito" (2) e as suas consequências são fulcrais:

"Todo o esforço de Kant, que, no campo especulativo, se resolve no agnosticismo radical, tende a isolar o homem da realidade para exaltá-lo na apoteose de uma independência absoluta. A filosofia clássica punha-se em face do cosmos, procurava conhecê-lo e determinar, como consequência desta visão, as relações essenciais entre o homem e o ser na ordem universal. Entre o homem e o ser cava a nova filosofia um abismo sem pontes. O homem é a medida do ser cognoscível e o centro do universo ao qual impõe as próprias leis. Tudo dele depende, tudo a ele se refere num relativismo integral. Fora do homem nada lhe é acessível; é como se para ele nada existira. Não equivale este isolamento total a afirmar que a natureza humana tem em si própria quanto é necessário para a perfeição de sua vida? Não corresponde a uma declaração de que a personalidade se encerra toda no interior de si mesma, numa região em que o pensamento é senhor absoluto e não recebe normas de nenhuma ordem objetiva? Achamo-nos também aqui em face de uma nova revolução copernicana, mas às avessas. Passamos do equilíbrio teocêntrico do cosmos para as instabilidades de um antropocentrismo sem consistência. Desta antropocentria a uma antropolatria (adoração do homem deificado), a distância não é grande e a vencerão, no século seguinte, com salto decidido, os herdeiros da tradição kantista." (2)

No campo da moral também assim o foi. Se para Kant nada conhecemos da realidade, então temos de criar uma moral a priori: o bem conhecido imperativo categórico. Assim, a lei suprema do dever é o que decide o bem e o mal. Temos de obedecer ao dever. 

"Qual, porém, o fundamento em que se baseia esta obrigação absoluta? Por que motivo devemos ao imperativo categórico uma obediência sem restrições? Porque a obediência é o dever e a lei é lei. Qualquer razão alheia ou exterior à vontade iria contaminar a moralidade na sua exigência de onímoda pureza. A ética tradicional partia da consideração do valor do objeto. Era a realização do bem, porque bem, que se impunha à consciências, como um dever: era a necessidade do bem a praticar que explicava a obrigação legal. Com Kant o formalismo da lei toma o passo sobre a bondade objetiva do seu conteúdo. Uma doutrina do bem já não é o pensamento de uma doutrina do dever. A racionalidade do objetivo deixa de ser a norma e a justificação da própria lei. Na motivação do ato moral só o pensamento da lei pode entrar como fator decisivo. Com esta nova ética, o racionalismo chega ao seu ideal, a afirmação da autonomia absoluta da ação humana. 'A propriedade da vontade de ser a lei de si mesma' eis como Kant define essa autonomia, condição suprema da moralidade. Agir em vista do bem, agir por amor, agir por Deus é determinar-se por motivos estranhos ao homem, heteronomia que atenta contra as exigências da moralidade. Toda a obediência a um poder distinto do homem é indigna do homem. Só é moral a obediência à sua própria lei. É a divinização da humanidade.

Verdade é que, a título de exigência da filosofia prática se pretende reafirmar a realidade dos valores metafísicos afastados pela filosofia teórica. Deus, a liberdade e a imortalidade, que a Crítica da Razão pura declarara inacessíveis e inafirmaveis sem antinomias insolúveis, reaparecem como postulados necessários da Razão pratica. Mas, convém não nos iludamos acerca do alcance destas afirmações de ordem prática. Deus, postulado pela existência do dever não reaparece na consciência humana como legislador supremo e primeiro princípio de toda obrigação. Seu papel é mais modesto: o de servir ao homem. Não podemos conceber, raciocina Kant, a virtude definitivamente divorciada da felicidade. Revolta-nos a idéia do justo para sempre infeliz. Mas felicidade e moralidade são heterogêneas, pertencem a ordens distintas e irredutíveis. Agir, tendo em vista uma recompensa, ser virtuoso para ser feliz, é imoral. A felicidade visada como fim de uma ação destrói-lhe a moralidade. Desta arte, como a ordem da virtude não pode, sem negar a si mesma, levar à ordem da felicidade, e por outro lado desejamos que o bom procedimento seja recompensado, postulamos um Ser inteligente e todo poderoso, capaz de realizar a união definitiva da virtude e da bem-aventurança. 'Este postulado é uma verdade, cuja certeza é garantida pela lei prática; mas é uma verdade que não é dada ao sujeito por um conhecimento e cuja afirmação, por conseguinte é, para ele, uma exigência, ou um direito, ou uma fé, designando aqui estes diferentes termos a necessidade de um ato que funda para o sujeito a necessidade de um objeto', na fórmula bem cunhada de V. Delbos. Em outros termos: Deus não é reintroduzido como objeto de conhecimento, cuja existência, com todos os seus coroláios, se impõe absolutamente à inteligência; afirmamos-lhe a realidade porque a julgamos necessária às nossas exigências. Não é o homem que serve a Deus, mas um Deus que serve ao homem. A autonomia absoluta continua a ser a regra essencial da vida; a vontade é suprema legisladora de si mesma; nenhum de seus atos deve inspirar-se em motivos alheios à própria lei. Declara-o explicitamente Kant, no Prefácio da Religião dentro dos limites da Razão pura: 'Fundada no conceito do homem que é o de um ser livre e que, por si mesmo, se submete a leis incondicionais, a moral não precisa da idéia de um ser superior ao homem para que o homem conheça o seu dever, nem, para que o cumpra, de outro motivo fora da própria lei'. É a afirmação de uma independência radical. Ruptura completa entre a inteligência e o ser; entre o homem e a realidade; entre a sua atividade livre e as finalidades objetivas e essenciais de sua natureza. Senhor absoluto, o homem dita leis a si e ao universo que lhe volteia ao redor como em torno de seu centro natural de gravidade. Síntese filosófica inspirada num egoísmo metafísico denso de ressonâncias catastróficas no domínio da civilização e da vida." (2)


Resumo:

"Os primeiros chefes da Reforma assentaram as suas baterias contra a Igreja, como organização hierárquica e visivel do cristianismo, mas, com os livros inspirados submetidos à livre interpretação da soberania individual, julgavam poder ainda salvar-lhe, com a integridade dos ensinamentos divinos, o carácter sobrenatural de religião revelada. Engano fatal. Em torno da própria essência do Evangelho foi o século XVIII travar a sua grande batalha. Deismo, filosofismo e iluminismo convergem os seus esforços para dar ao fato cristão um sentido puramente naturalista e reduzí-lo ao denominador comum dos outros acontecimentos da história humana. Sob a reverência enganadora de fórmulas maneirosas ou através da explosão violenta de injúrias e ódios mal contidos, a hostilidade a Cristo é substancialmente a mesma. O racionalista do século XVIII renuncia à luz da fé, submete aos limites da própria razão individual todo o cognoscivel e recusa a plenitude da vida que lhe oferece o Evangelho. Dificilmente poderia exagerar-se a gravidade da situação criada por estas atitudes. A seguir os mentores dos novos tempos, a civilização ocidental romperia com a tradição religiosa de todo o seu passado e entraría a combater, explicita ou implicitamente, os valores espirituais que lhe deram origem, energia e vida. O homem novo, que se prepara nas revoltas do século XVIII, já não quer ser cristão, volta as costas à luz que lhe vem do Verbo da Vida e pretende nortear a sua atividade moral e organizar as estruturas sociais da Cidade com os recursos escassos de uma filosofia empobrecida e esteril. A desagregação da consciência religiosa acentua-se nas classes cultas." (2)

"Contemporaneamente, o pensamento filosófico evolve no sentido da imanência total. Descartes pusera o problema do conhecimento em termos idealistas, mas resolvera-o com afirmações de um realismo maciço. O mundo extramental apresenta ainda toda a consistência sólida de uma realidade independente que a inteligência conhece, isto é, representa com fidelidade. Em Kant, o conhecimento passa a ser construção do objeto. Se ainda se afirma incoerentemente a existência de uma cousa em si, é para declara-la de todo inacessível ao espírito. O mundo do conhecimento só atinge aparências fabricadas pela projeção de formas subjetivas. O homem isola-se assim da realidade externa e proclama a sua independência em face das exigências objetivas de uma ordem universal. O centro do cosmos é ele; e o que, fora dele, existe ou parece existir é mera construção do seu espírito. Leis do mundo físico - pura criação da sua inteligência; leis do mundo - moral simples imposição de sua vontade intangível nas prerrogativas de uma autonomia absoluta. Que falta para a apoteose do homem? Ainda um passo nas negações e nas afirmações e estará consumada a antropolatría fatal." (2)

"Podemos ver como todos os erros estão entrelaçados uns com os outros: liberalismo, naturalismo, racionalismo, são somente aspectos complementares do que se deve chamar Revolução. Onde a reta razão, esclarecida pela fé, vê somente harmonia e subordinação, a razão deificada cava abismos e levanta muralhas: a natureza sem a graça, a prosperidade material sem a procura dos bens eternos, o poder civil separado do poder eclesiásticos, a política sem Deus nem Jesus Cristo, os direitos do homem contra os direitos de Deus, finalmente a liberdade sem a Verdade." (3)

Foi também sobre estes homens que escreveu Leão XIII:

"Agradou aos lutadores inovadores do século XVI filosofar sem qualquer respeito pela fé, o poder de inventar de acordo com seu próprio prazer e inclinação sendo pedido e dado por cada um. Portanto, era natural que os sistemas de filosofia se multiplicassem além da medida, e conclusões divergentes e conflitantes surgissem sobre aqueles assuntos, mesmo que sejam os mais importantes no conhecimento humano. De uma massa de conclusões, os homens costumam vacilar e duvidar; e quem não sabe com que facilidade a mente desliza da dúvida para o erro?" (4) 

E Pio IX, falando daqueles homens que "reivindicam para si mesmos, sem hesitação, o nome de 'filósofos'", descritos como homens que "não preservam a sã doutrina, mas desviam seus ouvidos da verdade", que "tentam ansiosamente produzir de suas trevas todos os tipos de crenças prodigiosas, e então ampliá-las com toda a sua força, publicá-las e divulgá-las entre as pessoas comuns", para, através das aparências da verdade é luz, "extinguir o zelo das pessoas pela piedade, justiça e virtude, para corromper a moral, para confundir todas as leis divinas e humanas e para enfraquecer e até possivelmente derrubar a religião católica e a sociedade civil." Acrescenta ainda que "esses amargos inimigos do nome cristão são arrastados miseravelmente por algum impulso cego de sua louca impiedade; eles vão tão longe em sua imaginação imprudente a ponto de ensinar sem corar, aberta e publicamente, doutrinas ousadas e inéditas, proferindo assim blasfêmias contra Deus. Eles ensinam que os mistérios mais sagrados de nossa religião são ficções de invenção humana e que o ensinamento da Igreja Católica se opõe ao bem e às prerrogativas da sociedade humana. Eles nem mesmo têm medo de negar o próprio Cristo e Deus." (5), chamando-os de "Adoradores da razão" e falando do "pernicioso erro de racionalismo, que, em nossa infeliz época, perturba não apenas a sociedade civil, mas também aflige a Igreja."

Afirma ainda que, "como resultado dessa imunda mistura de erros que se insinua por todos os lados, e como resultado da desenfreada licença para pensar, falar e escrever, vemos o seguinte: a moral deteriorada, a santíssima religião de Cristo desprezada, a majestade do culto divino rejeitada, o poder desta Sé Apostólica saqueado, a autoridade da Igreja atacada e reduzida à escravidão vil, os direitos dos bispos pisoteados, a santidade do casamento violada, a regra de todo governo violentamente abalado e muitas outras perdas para o cristão e para a comunidade civil. Veneráveis irmãos, somos obrigados a chorar e compartilhar seu lamento de que assim seja." (5) Ó, se o Papa visse como tudo está hoje!

Foi com vista a estes homens que o Papa condenou todos os seus erros (o racionalismo, o naturalismo, o indiferentismo, e, por fim, o liberalismo) através do syllabus dos erros e de muitos outros documentos

Há, no entanto, como diz o padre Romano Guardini, uma deslealdade nestes tempos. Por um lado aceita os valores cristãos como "a pessoa, a liberdade, a responsabilidade, a dignidade individuais, a caridade" mas "recusa a Revelação embora viva dos seus efeitos (...) Nietzsche viu-o bem quando disse que o não cristão dos tempos modernos ainda não tinha compreendido bem o que significa verdadeiramente o anti-cristianismo. As últimas décadas já o mostraram um pouco- e foram apenas um começo." (6)

Essas contradições de espírito e sociedade, apesar de ainda existirem hoje, foram bem claramente vistas pela próxima geração de intelectuais: os revolucionários e ateus do século XIX e XX.


O ateísmo revolucionário do Século XIX e XX:

“O assalto contra o cristianismo tornou-se mais consciente,e radical. Os primeiros chefes da Reforma assestaram as suas baterias contra a Igreja, como organização hierárquica e visivel do cristianismo, mas, com os livros inspirados submetidos à livre interpretação da soberania individual, julgavam poder ainda salvar-lhe, com a integridade dos ensinamentos divinos, o carácter sobre- natural de religião revelada. Engano fatal. Em torno da própria essência do Evangelho foi o século XVIII travar a sua grande batalha. Deismo, filosofismo e iluminismo convergem os seus esforços para dar ao fato cristão um sentido puramente naturalista e reduzí-lo ao denominador comum dos outros acontecimentos da história humana. Sob a reverência enganadora de fórmulas maneirosas ou através da explosão violenta de injúrias e ódios mal contidos, a hostilidade a Cristo é substancialmente a mesma. O racionalista do século XVIII renuncia à luz da fé, submete aos limites da própria razão individual todo o cognoscivel e recusa a plenitude da vida que lhe oferece o Evangelho. Dificilmente poderia exagerar-se a gravidade da situação criada por estas atitudes. A seguir os mentores dos novos tempos, a civilização ocidental romperia com a tradição religiosa de todo o seu passado e entraría a combater, explicita ou implicitamente, os valores espirituais que lhe deram origem, energia e vida. O homem novo, que se prepara nas revoltas do século XVIII, já não quer ser cristão, volta as costas à luz que lhe vem do Verbo da Vida e pretende nortear a sua atividade moral e organizar as estruturas sociais da Cidade com os recursos escassos de uma filosofia empobrecida e estéril. A desagregação da consciência religiosa acentua-se nas classes cultas.” (1)

É nesta fase que estamos.

“No terceiro momento, a evolução das idéias atinge a fase aguda da sua tragédia. Distinguimos, até aquí, em benefício da clareza analítica, os dois aspectos, negativo e positivo, do movimento geral das ideias. De um lado acentua-se progressivamente a depreciação dos valores espirituais que haviam alimentado a nossa civilização cristã e até certo ponto alimentam toda civilização humana. No longo e triste caminho das negações, o homem moderno foi multiplicando as suas recusas. Recusa da Igreja como sociedade espiritual das almas, depositária dos grandes dons da caridade divina à humanidade para a realização de seus destinos sobrenaturais. Recusa do Cristo Salvador e do seu Evangelho, como fonte de novas luzes e de nova vida destinadas à regeneração dos indivíduos e das nações. Ao homem do século XVIII, desintegrado das tradições vivas da história, apaixonado e iludido pelas forças isoladas da razão raciocinante, só resta a noção de Deus e de uma religião natural de poucas exigências, como viático insuficiente de uma vida espiritual que vai definhando numa anemia precursora de morte.

De outro lado, multiplicam-se as tentativas positivas de construções sistemáticas que tendem a colocar o homem, independente, no centro de um universo a seu serviço. Se as ciências experimentais domesticam as energias do mundo físico, o divórcio entre a inteligência e o ser rompe o equilíbrio no mundo moral, isolando o homem da ordem cósmica, inatingível, e enclausurando-o num solipsismo que lhe assegura uma realeza de deserto.

Estas duas tendências, a negativa e a positiva, antes convergentes mas ainda facilmente distinguiveis, encontram-se agora numa atitude radical: o ateísmo que as enfeixa identificando-as. Na escala descendente das negações espirituais, a negação de Deus ocupa o último degrau. Sem a Sabedoria Criadora não há razão suprema das coisas. No homem a inteligência e a vontade, inexplicáveis no seu dinamismo, perdem o objeto de suas aspirações mais profundas. Ao mesmo tempo, eliminada a soberania divina, a sonhada emancipação do homem atinge, teoricamente, as raias de uma independência total. Individual ou coletivo, o homem nada reconhece acima de si e afirma, sem restrições e em sua plenitude, o direito de dispor de seus destinos. Consuma-se a antropolatria, e, com ela, a subversão completa de todos os valores espirituais.

Nesta direção fatal empenha-se o século XIX. O ateísmo já não aparece agora como um fato esporádico numa consciência desarvorada. Negadores de Deus encontram-se tambem em outras épocas, mas como blocos erráticos que não dizem com a paisagem circunstante. Isolados do meio e sem influência sobre ele, vivem a sua negação individual sem ressonâncias sociais de grande amplitude. Nos tempos modernos o ateísmo apresenta-se como termo de uma longa evolução de idéias e atitudes que o foram lentamente preparando. A negação de Deus é o pressuposto de uma nova concepção das coisas que se pretende difundir nas massas a fim de prepara-las à organização social do futuro. O que antes não passava de um fenômeno psicológico que só interessava o moralista transforma-se num princípio dinâmico de reconstrução ideal da nova Cidade. Em vez de um simples ateísmo intelectual e singular, um ateísmo militante e conquistador de multidões.

Várias são as formas de que se reveste a mesma atitude fundamental. Não sendo possível estudá-las todas, escolhamos três bem características que poderão ser representadas pelos nomes de Comte, Nietzsche e Marx." (6)

Passaremos agora à análise destes três representantes desta fase.


Comte:

Para Comte a questão de Deus, da origem e fim do universo, são questões inúteis para o homem. O conhecimento só tem um fim prático e só com isso é que o homem se deve preocupar. 

Assim, Comte idolatra a ciência. A ciência é o único conhecimento que interessa para por o mundo material ao serviço do homem.

O lugar da Divindade é substituído pelo da humanidade. 

Apesar de ainda acreditar na importância da família, das propriedade e das antigas instituições, retira-lhes a teologia capaz de as sustentar e substitui-a por uma filosofia positiva fraca, pelo o que os seus sucessores já serão contra toda a ordem cristã. 


Nietzsche:

Comte não viu as relações ontológicas que ligam Deus à Verdade, o Bem, a Beleza, a Virtude, etc, e portanto achou que poderia retirar esse "luxo metafísico" e manter todas as suas consequências. 

Mas Nietzsche notou. E por um orgulho satânico, mais do que por uma posição intelectual, negou Deus afirmando: "Se existissem Deus como suportaria eu não ser Deus! Logo não há deuses!". 

Kant desejava salvar um pouco de moralidade e então fez de Deus o postulado da razão prática. Nietzsche queria-se livrar de todo o dever e imposição e então pregou o ateísmo. 

A morte de Deus, para ele, é a negação de todos os valores, o fundamento do niilismo. "O homem superior torna-se soberano... Deus é morto, agora nós queremos que o super homem viva!" (1)

Afirma que: "Expansão da vontade de poder do super homem é o único absoluto." (1)

Nega então todos os valores:

A verdade? Uma limitação do super homem:

"Os sábios que se submeterem aos fatos e às leis, e ajustam as suas afirmações às exigências da realidade, são ainda dominados pelo ideal ascético, escravos de uma 'fé num valor metafísico, num valor por excelência da verdade', são ainda religiosos! Não passam de homens 'objetivos', 'espelhos' sem outro prazer que o conhecimento 'reflexo'. Viva 'o homem violento, o criador cesário da cultura, o homem complementar no qual se justifica o resto da existência', o homem que é 'um início, uma criação, uma causa primeira' (...) 'Nada é verdadeiro, tudo é permitido.' Aí está, enfim, conclue ele, 'a liberdade de espírito, uma palavra que punha em questão a própria fé na verdade!'. (1)

E a moral? Uma outra limitação do super homem. Bem e mal são palavras de fracos.

"Embarcado assim na liberdade ilimitada das grandes águas o superhomem poderá dar toda a expressão aos seus instintos indomáveis. Nada o constrange. A expansão soberana da sua vida, eis o seu ideal. E a sua vida é tudo o que a manifesta e exalta como força, como domínio, como afirmação irrestrita de si mesma." (1)

Eis a divinização do homem no seu estado mais puro, o egoísmo no seu mais alto nível, o niilismo e o ateísmo como base para a negação de qualquer coisa que não seja o eu:

"'Eu vos ensino o Superhomem'. Todos os ídolos antigos jazem por terra em frangalhos. As velhas tábuas - com seus valores de decadência partidas para sempre. A Verdade, o Bem, Deus envolvidos na mortalha das cousas que viveram e já não vivem. 'O Superhomem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: que o superhomem seja o sentido da terra'. O novo herói não é o homem de ciência, nem o moralista, nem o religioso não será o sábio ou o santo; será o dominador. Seu ideal será um ideal de força. Vontade de poder, Leben ist wille zur Macht'. É bom 'tudo o que exalta no homem o sentimento do poder, a vontade de poder, o próprio poder'. Ação: eis o único valor. Mas ação sem relação a nenhuma finalidade externa, nem respeito a nenhuma norma interior. Ação, livre, autônoma, independente absolutamente de tudo. Ação que se afirma sem outra razão de ser senão a própria afirmação. Agir 'por causa de' ou 'para' isto ou aquilo é ligar a vontade a outra coisa ou a outrem. E o querer não reconhece vínculos. É um querer de criador e o criador cria por criar; é a medida de todas as coisas e de todos os valores. 'Este eu afirma o mais lealmente o seu ser; este eu que cria, que quer e dá a medida e o valor das cousas'." (1)

No campo político também tem as consequências mais nefastas:

“Nas relações com os outros, o herói de Nietzsche nada perde de sua soberania inatingível. Ele é a razão suprema da humanidade e a humanidade só existe para ele." (1)

As pessoas dividem-se em duas: os privilegiados, que se colocam acima do bem e do mal, e o rebanho, que segue a moral comum, a obediência e a resignação. 

Assim a velha aristocracia cristã que deveria ser formada pelos virtuosos e sábios aí serviço da "res pública", é substituída por uma nova aristocracia:

"'O essencial em toda a aristocracia boa e sã é que ela não se sinta como função da comunidade, mas como seu sentido e a sua mais alta justificação, e por isto sacrifique em boa consciência inumeráveis homens que, por sua causa devem ser rebaixados e reduzidos a homens imperfeitos, a escravos e instrumentos' (Além do bem e do mal). Imolar como animais as multidões humanas ao próprio egoismo, com dureza e com alma de aço, sem piedade nem compaixão, é o direito intangível do Super Homem, que dá sentido à terra e razão de ser à humanidade." (1)

No campo internacional, o domínio dos fortes, a velha adoração pagã da guerra retorna:

"Deveis amar a paz como meio de novas guerras. E mais a paz curta do que longa... Vós dizeis que é a boa causa que santifica a guerra. Eu vos digo: é a boa guerra que santifica qualquer causa. A guerra e a coragem fizeram maiores causas do que o amor do próximo" (Assim falou Zaratustra) (1)

Eis o pensamento moderno, a divinização do homem e a negação de Deus levadas às últimas consequências:

"As tendências modernas negativas e positivas que vimos estudando nele atingem o cimo de sua exaltação exasperada. É a negação radical de todos os valores espirituais. Nega-se o cristianismo; nega-se a divindade; nega-se a moral e o valor do bem, nega-se a própria realidade do ser. Sobre este deserto, onde já nem de ruínas se encontram vestígios, eleva-se a soberania do Super Homem divinizado, Criador absoluto e independente. Nenhuma norma a regular-lhe a ação; nenhuma finalidade a hierarquizar-lhe os valores. O seu ato desconhece relações e condições, a afirmação de sua existência é a sua própria razão de ser. Apoteose da força. Do ateísmo desfiam-se, num gesto ousado mas lógico, todas as consequências fatais que levam à usurpada divinização do homem. Mas a divindade é um manto muito pesado para ombros finitos. A vida criada, sem norte, perde a razão suprema de ser vivida. Apagam-se no horizonte do homem todos os ideais, partem-se todas as molas do seu dinamismo. Do que parecia um canto triunfal à existência só resta no amor do destino o enigma de uma dor sem consolo. A catástrofe pessoal de Nietzsche tem o valor de um símbolo tragicamente expressivo." (1)


Marx:

Se Nietzsche era um individualista e idolatrava o homem individual, o "frio construtor de sistemas" (1), idolatrava o homem coletivo. Nas duas visões há o materialismo negacionismo total da ordem moral superior. Num em favor do super homem, no outro do mundo comunista. Os dois fundamentadas na visão do mundo moderna: materialista, niilista, relativista, naturalista, individualista e hedonista. 

Hegel e Feuerbach são as duas pontes que separam Kant e Marx.

O primeiro legou-lhe a dialética, que ao lhe dar a ideia de um contínuo progresso por negação lhe deu uma base para as aspirações revolucionárias. 

O segundo deu-lhe o mais ferrenho materialismo. A religião e Deus são uma ilusão, uma projeção daquilo que há de bom em nós para um Ser que o afasta da realidade, das boas aspirações e o impede de realizar-se. 

"Para restituir, portanto, ao homem a plenitude de sua natureza e à vida social toda a elevação altruística de que é suscetível importa dissipar a ilusão perniciosa. Só combatendo a religião se conseguirá suprimir esta alienação funesta, diminuidora de valores humanos. O homem, não alienado, será completamente restituido a si mesmo. Sobre a extinção do amor de Deus elevar-se-á o amor da humanidade." (1)

A religião é uma diminuição do homem e a luta antireligiosa um meio um meio de libertação e reintegração da nossa natureza na plenitude da sua riqueza. Mas de onde vem a necessidade original da religião?

Para Marx, tem a causa na sociedade. E esta depende das condições económicas que se fundamentam nas relações de produção. Ou seja, alterando as condições económicas que geram essa alienação religiosa, desaparece a religião. O comunismo é o ateísmo militante, é o maior serviço prestado ao ateísmo anti-religioso. 

Daí também se segue que todas as ideias de bem, belo, a religião, o justo, são consequências das condições económicas da sociedade. 

"O pensamento, que de um lado organiza e orienta a exploração da natureza e de outro, com suas idéias abstratas, constrói ideologias, não é filho do espírito: é simples função da matéria organizada, reflexo necessário do jogo das forças produtivas. Consequência indeclinável da estrutura sistemática do marxismo. O postulado metafísico do materialismo mais radical elimina a possibilidade de um mundo transcendente; os valores espirituais perdem, com o objeto próprio, toda consistência e toda autonomia. O que são, são-no exclusivamente como dependências fatais da evolução das forças econômicas; só estas têm existência própria, só elas possuem uma significação real para a vida. O motor decisivo da história humana é, em última análise, um elemento material. A ditadura do econômico é totalitária. (...)

Elaboradas como projeções abstratas de uma determinada organização material da vida, toda ideologia, e, em modo particular, a religiosa, tende naturalmente a conserva-la opondo-se às forças de transformação social, que atuam por evolução ou revolução. Justificando a atual distribuição de bens, a religião é explorada pela classe capitalista contra os trabalhadores; ela é essencialmente um instrumento de 'classe', cujo efeito natural é adormecer as massas e retardar o movimento emancipador; ela é, por isso, 'o ópio do povo'. Daí a incompatibilidade visceral entre a religião e o comunismo. O ódio de morte que lhe consagram os discípulos de Marx é alimentado pela própria estrutura orgânica de toda a sua sistematização filosófica. A religião, porque nos fala de uma ordem transcendente de valores, é uma ilusão" funesta; porque elaborada como superstrutura de um regime econômico de exploração, tende com os seus dogmas e seus preceitos a perpetuar esta situação de sofrimento, que lhe deu origem. Por estes títulos, a luta sem tréguas contra a religião sob todas as suas formas, contra o sentimento religioso e contra as confissões religiosas organizadas em igrejas, impõe-se ao marxista como o primeiro e o mais infatigável dos deveres. Assim o esforço para explicar em termos de filosofia a ilusão religiosa de Feuerbach, resolve-se, em termos de ação, no combate pregado por Marx a toda e qualquer manifestação humana de uma atitude religiosa. O ateu especulativo deu um passo adiante e transformou-se em ateu militante. A luta contra Deus é a condição primeira da reintegração do homem em si mesmo. 'A crítica da religião desengana o homem para que ele pense, atenue, afeiçoe a sua realidade como um homem desenganado que atingiu a razão e para que se mova em torno de si mesmo, isto é, em torno do seu verdadeiro sol'. 'A crítica da religião leva a esta doutrina: o homem é, para o homem, o ser supremo'. Depois daquele ateísmo estava aplanado o caminho para esta antropolatria. (...)

Dava assim o passo definitivo para emancipar o homem não só o burguês de toda a dependência de Deus e fazê-lo fim supremo de si mesmo. Esta mesma tendência, mais ou menos dissimulada, já animava a burguesia que crescera embalada nos princípios do século XVIII. Com as negações progressivas dos valores espirituais, já se vinha preparando o terrenismo total e avultando a hegemonia da ordem econômica, entregue si mesma e emancipada das exigências morais que the impõe o respeito da dignidade humana. Capitalismo e comunismo, duas formas de ditadura econômica sem alma. Numa e noutra, em graus diversos, a mesma pretensão quimérica de construir sem Deus a cidade das almas e resolver sem o Infinito o problema do homem. Longe de trazer uma solução aos males orgânicos da civilização capitalista, o marxismo levaria ao paroxismo a sua crise fatal. 'A filosofia bolchevista, como profundamente observa Dawson, é simplesmente a reductio ad absurdum dos princípios implícitos na cultura burguesa e por isso não oferece nenhuma resposta real às suas fraquezas e deficiências. Ela toma o nadir do desenvolvimento espiritual da burguesia da Europa pelo zênite de uma nova ordem'." (1)


Resumo e conclusão:

Primeiro quebraram a harmonia entre o natural e sobrenatural, rejeitando pouco a pouco a luz sobrenatural do evangelho. No início sobrava ainda o património de virtudes naturais, de uma moral racionalista, mas destituído da proteção sobrenatural, foi sendo combatida até desaparecer do homem a ordem do cosmos inteligível. Não sobrou mais nada. O que é o homem? Qual o seu fim? Para uns eram perguntas inúteis. Para outros a vontade de poder era o absoluto, o único existente fim absoluto. Para outros, um determinismo económico governa-nos. 

Isto porque sem um realismo metafísico não há um fim para o homem. E o fim do homem é o mais importante. "Esta palavrinha tão breve: fim, é de uma riqueza incalculável de significado. Para a inteligência, é luz que aclara a natureza mesma de um ser, de suas aptidões e tendências, da hierarquia de suas atividades. Para a vontade é o bem que atrai, estimula e dirige todo o seu surto realizador. Para a ação é a mola poderosa que lhe alimenta as energias fecundas. O fim é o centro de todo o dinamismo humano. A menor das nossas ações o pressupõe; a razão suprema do viver com ele se identifica. Sem uma estrela polar que oriente e explique a existência, como hierarquizar-lhe as manifestações multiformes e realizar-lhe a unidade interior, condição suprema da paz e da expansão fecunda?" (1)

Assim, desapareceu tudo do mundo a não ser o homem materialista. Homem livre de qualquer coisa que não seja ele mesmo. As almas dos homens ficaram desorientadas e vazias, procurando resolver isso através do barulho das paixões. Na sociedade, perante o vício de todos, o individualismo surgiu como a solução preferida de todos. Vivemos por não mais que o egoísmo de nos satisfazer, afundados nas “sombras de um pessimismo sem esperança” (1). Aquela antiga vida cristã de luta pela virtude, alegria, amor, esperança, transformou-se num egoismo desesperante descrito por Schopenhauer como baseado na ansiedade de não ter e no tédio de ter, em almas sem um sentido para a vida, vazias, fracas. Até a primavera da juventude se tornou numa revolta infantil onde a maior causa de morte é o suicidio. 

Isto porque "há no fundo da alma humana uma fonte perene de nobres inquietudes que nenhum progresso da civilização logrará um dia estancar. Ante a caducidade dos bens terrenos e o insaciável dos seus anseios, ante a atração irresistível de um ideal nunca realizado nas estreitezas e misérias da vida, ante o mistério insondável do Infinito (tremendum e fascinosum) o homem sofre torturas indiziveis, angústias dum ser em anelos de realização da sua plenitude." (2)

Como "uma agitação doentia de bússola que perdeu o seu norte. Obnubila-se na vida espiritual do homem a conciência dos próprios destinos. Uns após outros, no trono das suas adorações, vão subindo e tombando os ídolos efêmeros e impotentes. E com a queda sucessiva dos falsos deuses e a experiência repetida de desenganos dolorosos enraiza-se a dúvida e, com a dúvida, a tortura e o desespero." (2) 

E aí está a raiz mais profunda dos males dos nossos tempos. "Todos os problemas, económicos e políticos, morais e sociais, resolvem-se em última análise em problemas humanos e pedem soluções humanas inspiradas num conceito da natureza e dos destinos do homem. Os paliativos superficiais dissimulam a desordem profunda sem a remediar. (...) Sem uma orientação total que desça ao intimo das ciências onde se elaboram as decisões dos grandes rumos, todas as esperanças de reconstrução social estão fadadas a um malogro inevitável." (2)

Assim, os males económicos, a guerra, a exploração, as ideologias genocidas, o desespero das pessoas, e outros tantos males que afligem a nossa civilização, não são só males passageiros, mas frutos de uma crise profunda, a saber, o materialismo hedonista e individualista, destruidor da antiga civilização cristã e de tudo o que dela resta, seja a moral ou a cultura. 

"O materialismo, o grande destruidor da civilização, aquele que sempre existiu que espalha as suas sementes devido à "sua amplitude, a sua profundidade, a sua organização oficial. De um fato episódico, na evolução das idéias, ou na biografia dos indivíduo, passamos a um fenômeno coletivo de repercussões incomensuráveis. Dos princípios materialistas deduzem-se friamente todas as consequências dissolventes, na atividade individual, familial, social e política. É a negação impecável de todos os valores espirituais. A moralidade como o direito, reduzidos ao interesse momentâneo do indivíduo, do partido ou do estado, desaparecem como realidades humanas, forças vivas, agentes de equilibrio e fatores de harmonia social."

Qual a solução? Certamente percorrer o caminho oposto, a saber, voltar ao amor, à virtude, à Beleza, à Verdade: a Cristo!

Após ver como o mundo moderno foi fundado sob séculos e séculos de luta anti-católica, proclamamos: é verdade, somos, mesmo sob pena de sermos odiados por todos, fundamentalmente e absolutamente opostos ao mundo moderno. Não há como negar: tempos houve em que a civilização era católica, mas o caminho que a sociedade tem seguido nos últimos tempos é exatamente o de combate contra essa civilização, combate contra a Igreja, contra toda a cultura e moral católica. Disse Pio XI, na sua encíclica, Divini Redemptoris: "Pela primeira vez na história estamos a assistir a uma insurreição, cuidadosamente preparada e calculadamente dirigida contra 'tudo o que se chama Deus' (cfr. 2 Tess 1, 4)". Pois que se no início a luta foi contra o domínio cristão da cultura, hoje em dia tem sido contra cada vestígio de cristianismo na cultura. Então, vendo isto claramente e na nossa consciência de católicos, não podemos deixar de nos proclamar contra o mundo moderno e o que ele representa. Não podemos fechar os olhos e dizer que está tudo bem para agradar aos nossos contemporâneos. Não podemos, após ver que eles combatem tudo aquilo que nos é mais caro, ceder a nossa fé. Non possumus. Somos loucos? Somos loucos com 2000 mil anos da nossa Igreja lembrando as palavras de Santo Antão: "Virá o tempo em que os homens enlouquecerão, e, quando virem alguém que não está louco, irão atacá-lo e dizer: 'tu és louco'". E não cederemos nem uma ponta mas levantaremos o estandarte de Cristo como Pio IX que, após descrever as males da civilização moderna, dizia:

"Poderia um Romano Pontífice estender a mão amiga a uma civilização desse tipo e entrar sinceramente em um tratado e acordo mútuo com ela? (...) Quando um sistema, estabelecido de maneira a enfraquecer e talvez destruir a Igreja de Cristo, deseja ser reconhecido com o nome de 'civilização', sem dúvida esta Santa Sé e Romano Pontífice nunca poderá estar em boas relações com uma civilização deste tipo." (7)

Lembramos todos os mártires que, contra o mundo, deram a vida por Cristo pois como disse Santo Atanásio:

"Se o mundo for contra a Verdade, eu serei contra o mundo!"

Para terminar, relembramos uma frase do Papa Gregório XVI já aqui publicada:

"Nós os exortamos a lutar pela causa de Deus e da Igreja com maior zelo à medida que os ataques do inimigo se tornam mais severos. É vosso dever permanecer como uma parede para que nenhuma outra fundação possa ser colocada além daquela que já foi colocada. Também é vosso dever manter a fé imaculada. Há outro encargo sagrado que devem defender firmemente, a saber, as santas leis pelas quais a Igreja estabelece sua disciplina e os direitos desta Sé Apostólica. (...) Desembainhem a espada do espírito que é a palavra de Deus. Denuncie, implore, repreenda com toda a paciência e ensino. Trabalhe e lute pela religião católica, pela autoridade divina e pelas leis da Igreja, pela Sé de Pedro e sua dignidade e direitos 'para que não apenas os que são justos permaneçam seguros, mas também para que aqueles que foram enganados pela sedução possam ser chamado de volta do erro.'"

Miguel 

Ad majorem Dei gloriam

Referências:

(1) A Divisão da Cristandade, Christopher Dawson

(2) A Crise do Mundo Moderno, Padre Leonel Franca

(3) Do Liberalismo à Apostasia, Dom Marcel Lefebvre 

(4) Aeterni Patris, Papa Leão XIII;

(5) Qui Pluribus, Papa Pio IX;

(6) O Fim dos Tempos Modernos, Padre Romano Guardini

(7) Iamdudum Cernimus, Pio IX

Comentários